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R$ 42.700 de dívida bruta do governo por brasileiro

A dívida bruta do governo geral na série do Banco Central saiu de R$ 7.100 por habitante em 2006 para R$ 42.700 em 2024.

Gráfico de colunas da dívida bruta do governo geral por habitante no Brasil: R$ 7.100 em 2006, R$ 19.200 em 2015, R$ 31.300 em 2020 e R$ 42.700 em 2024, com a fonte escrita dentro da imagem.

Dívida bruta por habitante, em reais, 2006 a 2024

 

R$ 42.700. Foi quanto a dívida bruta do governo geral rendeu por habitante no fim de 2024, dividindo o saldo de dezembro apurado pelo Banco Central do Brasil pela população estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

A dívida bruta do governo geral, o total que União, estados e municípios devem ao mercado e ao sistema financeiro sem descontar o que o setor público tem a receber, é o indicador que o Banco Central publica todo mês nas Estatísticas Fiscais desde dezembro de 2006.

A imprensa quase sempre mostra esse total como percentual do Produto Interno Bruto, a soma de tudo o que o país produz num ano. O percentual serve para comparar o Brasil com outros países e para medir a capacidade de pagamento da economia inteira.

O percentual tem um defeito de leitura para quem lê em casa. Ninguém tem ideia do tamanho de um Produto Interno Bruto, e uma variação de três pontos percentuais não vira imagem nenhuma na cabeça de quem recebe salário no dia cinco.

Existe outro denominador à mão, e ele custa uma divisão só. Trocar o Produto Interno Bruto pela população devolve a mesma dívida numa unidade que cabe no bolso: quantos reais de dívida pública existem para cada pessoa viva no país.

A conta não cria cobrança nominal no seu nome. A dívida pública se rola no mercado com prazo, juro e vencimento próprios, sem rateio por habitante em lugar nenhum da lei.

O que a divisão faz é escala. Ela transforma um saldo de treze dígitos num valor da mesma ordem de grandeza de um carro popular usado.

A série do Banco Central começa em dezembro de 2006 com um saldo perto de R$ 1,33 trilhão. O país tinha então cerca de 187 milhões de habitantes, pelas estimativas do instituto de estatística, e a divisão devolvia aproximadamente R$ 7.100 por pessoa.

Dezoito anos depois, o saldo de dezembro de 2024 passou de R$ 9 trilhões e a população estimada chegou a 212,6 milhões. A mesma divisão devolve seis vezes mais do que devolvia no começo da série, em reais correntes de cada época.

O gráfico de hoje coloca quatro dezembros dessa série na mesma escala, em reais de dívida bruta por habitante, para que o salto apareça no tamanho que ele tem.

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I  O Gráfico do Dia

De R$ 7.100 para R$ 42.700 por habitante

O total da dívida pública não cabe na cabeça de ninguém. Dividido pela população, ele cabe.

A dívida bruta do governo geral dava cerca de R$ 7.100 por habitante em dezembro de 2006, R$ 19.200 em dezembro de 2015, R$ 31.300 em dezembro de 2020 e R$ 42.700 em dezembro de 2024, cruzando o saldo publicado pelo Banco Central do Brasil com a população estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

O gráfico tem quatro colunas e uma unidade só, o valor em reais correntes de dívida bruta que cabe a cada habitante no fim daquele ano. A primeira coluna marca o começo da série do Banco Central. A última marca o saldo mais recente fechado.

As quatro colunas saem de dois números públicos cada uma. O saldo de dezembro da dívida bruta do governo geral vem das Estatísticas Fiscais do Banco Central do Brasil, e o total de habitantes vem da estimativa anual de população do instituto de estatística.

O salto entre a primeira e a última coluna chega a R$ 35.600 por habitante. Boa parte do salto é inflação acumulada em dezoito anos, e o restante é crescimento real do estoque devido pelo setor público.

Vale separar as duas forças, porque elas contam histórias distintas. Em proporção do Produto Interno Bruto, a dívida bruta saiu de 55,5% em dezembro de 2006 para 76,1% em dezembro de 2024, pela mesma série do Banco Central.

O denominador populacional quase não se mexeu no período. O Brasil ganhou cerca de 25 milhões de habitantes entre 2006 e 2024, um crescimento de aproximadamente 13%, enquanto o saldo nominal da dívida multiplicou por quase sete.

Duas datas explicam os degraus mais visíveis da série. A crise de 2015 e 2016 derrubou a arrecadação e ampliou o déficit primário, e a pandemia de 2020 acrescentou o auxílio emergencial e outras despesas extraordinárias ao mesmo estoque.

A coluna de 2020 carrega o efeito mais concentrado. A dívida bruta chegou a 86,9% do Produto Interno Bruto naquele dezembro, o maior percentual de toda a série do Banco Central, e depois recuou com a inflação alta corroendo o valor real do estoque.

Um alerta de leitura sobre reais correntes: as quatro colunas usam o real de cada dezembro, sem correção pela inflação, e o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo acumulou mais de 200% entre 2006 e 2024. Corrigida a preços de 2024, a coluna de 2006 passaria de R$ 20 mil por habitante.

Vale registrar o que o gráfico não mostra. Ele não separa dívida interna de externa, não informa o prazo médio de vencimento dos títulos, não desconta os ativos do setor público e não vale como projeção para os anos seguintes.

Fonte e método: dívida bruta do governo geral, saldo de dezembro, nas Estatísticas Fiscais do Banco Central do Brasil, dividida pela população estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística para os anos de 2006, 2015, 2020 e 2024.

 
 

II  A Conta do Mês

Treze meses de salário por cabeça

A fatia de R$ 42.700 por habitante equivale a cerca de treze meses do rendimento médio real habitual do trabalho, que a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística apurou perto de R$ 3.200 mensais em 2024.

O denominador populacional já aproxima o número da vida real, e um segundo denominador aproxima mais ainda. Trocar reais por meses de trabalho tira a inflação da comparação, porque salário e dívida sobem no mesmo dinheiro de cada época.

No fim de 2006, o rendimento médio habitual girava perto de R$ 1.600 mensais na apuração do instituto de estatística. A fatia de R$ 7.100 por habitante equivalia então a aproximadamente 4,4 meses de rendimento médio.

Em 2024, a mesma conta chega a 13,3 meses. O estoque de dívida por habitante cresceu bem mais rápido do que o rendimento médio do trabalho brasileiro no mesmo intervalo, e o vão de nove meses de salário resume o descompasso.

Na série, o percurso fica assim:

Saldo da dívida bruta em dezembro de 2006R$ 1,33 trilhão
Saldo da dívida bruta em dezembro de 2024acima de R$ 9 trilhões
Dívida por habitante em 2006cerca de R$ 7.100
Dívida por habitante em 2024cerca de R$ 42.700
Dívida por habitante em meses de rendimento, 20064,4 meses
Dívida por habitante em meses de rendimento, 202413,3 meses

"O que é prudência na conduta de cada família privada dificilmente pode ser loucura na de um grande reino."

Adam Smith, A Riqueza das Nações, ano de 1776

A frase virou o argumento favorito de quem defende austeridade, e ela pede uma ressalva técnica. Um governo emite dívida na própria moeda, rola vencimento com emissão nova e tem horizonte sem fim, três vantagens que nenhuma família tem.

A ressalva não anula o custo. Cada ponto de dívida cobra juro, e o juro entra no orçamento como despesa financeira que disputa espaço com saúde, educação, segurança e investimento em obra.

O juro é onde a conta encosta no seu dia. A despesa com juros nominais do setor público consolidado superou R$ 900 bilhões em 2024, pelas mesmas Estatísticas Fiscais do Banco Central, valor que a arrecadação de tributos precisa cobrir antes de qualquer outra coisa.

Para quem cuida do próprio dinheiro, a série tem uma leitura direta. Dívida pública alta pressiona a taxa básica de juros para cima, o que encarece crédito imobiliário e financiamento de carro e, ao mesmo tempo, melhora o retorno de quem aplica em título público.

A mesma série explica boa parte do rendimento da sua reserva. Quem compra Tesouro Selic ou deixa dinheiro em fundo de renda fixa está do lado credor dessa conta, e o juro que entra na sua carteira sai do orçamento que a coluna de 2024 desenha.

 

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III  Refaça a Conta

Calcule a sua fatia da dívida

1. O saldo atualizado: abra as Estatísticas Fiscais no site do Banco Central do Brasil, procure a tabela da dívida bruta do governo geral e anote o saldo em reais do mês mais recente publicado.

2. A população do ano: pegue a estimativa de população mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, divida o saldo por ela e guarde o resultado em reais por habitante.

3. A sua medida de tempo: divida esse valor pelo seu rendimento mensal líquido, e o resultado dá em quantos meses do seu próprio trabalho a fatia média de dívida pública caberia.

Com o número na mão, três verificações mostram o tamanho do erro que ele pode carregar.

A primeira verificação é o indicador certo. Dívida bruta e dívida líquida do setor público medem coisas distintas, porque a líquida desconta reservas internacionais e créditos, e usar uma no lugar da outra muda o resultado em dezenas de milhares de reais por habitante.

A segunda é a moeda do ano. Comparar um saldo de 2006 com um de 2024 sem corrigir pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo confunde inflação com endividamento, e a inflação responde por mais da metade do salto nominal da série.

A terceira é a base populacional. A estimativa anual do instituto de estatística foi revista depois do Censo de 2022, e usar uma projeção antiga aumenta artificialmente o denominador e reduz a fatia por habitante.

O uso prático aparece na leitura de manchete fiscal. Quando um texto anuncia que a dívida subiu dois pontos do Produto Interno Bruto, converter o movimento em reais por habitante mostra quanto o estoque mudou por pessoa naquele intervalo.

O uso seguinte aparece na escolha de investimento. Expectativa de dívida em alta costuma vir junto de juro real mais alto e de prêmio maior nos títulos longos, e quem acompanha a série decide melhor entre prefixado, pós-fixado e indexado à inflação.

O uso final aparece no debate sobre orçamento público. Quem sabe a fatia por habitante e o peso dos juros no orçamento discute corte de gasto e aumento de imposto com número na mão, sem depender do percentual do Produto Interno Bruto que ninguém consegue visualizar.

R$ 35.600. Foi quanto a dívida bruta do governo geral por habitante aumentou entre dezembro de 2006 e dezembro de 2024, em reais correntes, cruzando o Banco Central do Brasil com a população estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

"Quantos meses do seu salário cabem na sua fatia da dívida pública?"

 
 

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