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Os 15 anos para zerar o déficit de 6,2 milhões de casas

A Fundação João Pinheiro contou 6,2 milhões de moradias faltando em 2022. No ritmo de entrega do Minha Casa Minha Vida, a fila leva 15 anos.

Gráfico de colunas com os anos para zerar o déficit habitacional de 6,2 milhões de domicílios da Fundação João Pinheiro: 62 anos com 100 mil entregas por ano, 31 com 200 mil, 15 com 420 mil e 6 com 1 milhão, com a fonte escrita dentro da imagem.

Anos para zerar o déficit, por ritmo de entrega

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6,2 milhões de domicílios. Foi o tamanho do déficit habitacional brasileiro em 2022 pela Fundação João Pinheiro, no estudo que o órgão publicou em 2024 com dados do IBGE.

A Fundação João Pinheiro é o centro de pesquisa do governo de Minas Gerais, com sede em Belo Horizonte. Desde 1995 ela faz, sob contrato com o governo federal, a conta oficial de quantas moradias faltam no país.

Em 2016, a fundação passou a usar a PNAD Contínua (a pesquisa domiciliar que o IBGE aplica o ano inteiro em todos os estados). A série nova começa nesse ano e permite comparar um levantamento com o outro sem trocar de método no meio do caminho.

O déficit não conta gente sem casa na rua. Ele soma domicílios que precisariam ser construídos ou trocados: barracos de madeira aproveitada, casas de taipa sem reboco, cômodos improvisados em fundo de loja e famílias que dividem o mesmo teto com outra família sem querer.

Cada situação entra na conta uma vez só. Uma família que mora num barraco e ainda divide esse barraco com os sogros vale um domicílio faltando, não dois.

Pela Fundação João Pinheiro, o total ficou perto de 5,7 milhões em 2016 e perto de 6 milhões em 2019. Em 2022, chegou aos 6,2 milhões, o maior da série nova.

São mais domicílios do que o IBGE contou no Censo 2022 em todo o estado de Santa Catarina, perto de 2,7 milhões, e no Paraná, perto de 4 milhões, somados com folga. Uma fila desse tamanho caberia em dois estados inteiros.

O número cresceu num período em que o país continuou construindo. Prédios subiram em todas as capitais, loteamentos abriram nas periferias e o principal programa federal de moradia seguiu entregando chaves.

A pergunta que o gráfico desta edição responde é aritmética: se o Brasil parasse de criar famílias novas e só entregasse casas, quantos anos levaria para o estoque de 6,2 milhões chegar a zero, em cada ritmo de entrega?

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I  O Gráfico do Dia

O ritmo de entrega decide a espera

Dividido pelo ritmo de entrega, o déficit de 6,2 milhões de domicílios zera em 62 anos com 100 mil casas por ano, em 15 anos com 420 mil e em 6 anos com 1 milhão, pela conta desta edição.

A primeira coluna, de 62 anos, usa 100 mil moradias entregues por ano. É um ritmo de programa pequeno, perto do que o governo federal financiava em habitação popular antes de 2009.

A segunda coluna, de 31 anos, dobra o ritmo para 200 mil unidades. Uma criança nascida no ano da conta chegaria aos 30 anos antes de a última família sair da fila.

A terceira coluna, de 15 anos, usa o ritmo real do Minha Casa Minha Vida. Pelo Ministério do Desenvolvimento Regional, em balanço de 2020, o programa entregou perto de 5,1 milhões de unidades entre 2009 e 2020.

Divididas por 12 anos, as 5,1 milhões de chaves dão perto de 420 mil moradias por ano. É o maior ritmo sustentado que um programa federal de habitação já teve no país.

O Minha Casa Minha Vida foi lançado em março de 2009, durante a crise financeira mundial, como plano de emprego na construção civil e de moradia ao mesmo tempo. O governo subsidiava a parcela das famílias de renda mais baixa e financiava o resto pela Caixa Econômica Federal.

A conta das entregas mistura faixas de renda diferentes. Parte das chaves foi para famílias que compravam o primeiro imóvel com financiamento subsidiado, sem estar no déficit; a parte de renda mais baixa, a que mais atende a fila, recebeu menos da metade das unidades, pelo mesmo balanço do Ministério do Desenvolvimento Regional de 2020.

Com o maior programa de moradia da história do país, o estoque de 2022 levaria 15 anos para zerar.

A quarta coluna, de 6 anos, imagina 1 milhão de entregas por ano. O programa nunca chegou perto desse ritmo, nem no auge das contratações entre 2010 e 2014. Chegar lá exigiria mais que dobrar o orçamento, a mão de obra e os terrenos urbanos disponíveis para habitação popular.

A distância entre as colunas mostra o peso do ritmo. Cada 100 mil casas a mais por ano encurtam a espera em vários anos quando o ritmo é baixo, e em poucos meses quando ele já é alto.

Os 15 anos da terceira coluna são o melhor caso possível. A conta supõe que nenhuma família nova entra na fila durante o período e que toda casa entregue vai para quem está no déficit.

Fonte e método: déficit habitacional de 2022 da Fundação João Pinheiro (publicação de 2024); entregas do Minha Casa Minha Vida pelo balanço do Ministério do Desenvolvimento Regional de 2020; estoque dividido pelo ritmo anual; valores arredondados.

 
 

II  A Conta do Mês

A fila ganha 1,2 milhão de lares por ano

Entre o Censo 2010 e o Censo 2022, o IBGE contou perto de 15 milhões de domicílios ocupados a mais no Brasil, perto de 1,2 milhão por ano, quase três vezes o ritmo de entrega do Minha Casa Minha Vida.

Os 15 anos do gráfico supõem um país parado. O Brasil não para: todo ano, jovens saem da casa dos pais, casais se separam, viúvos passam a morar sozinhos.

Cada mudança dessas cria um domicílio novo. Pelo IBGE, o Censo 2010 registrou perto de 57 milhões de domicílios ocupados, e o Censo 2022, perto de 72 milhões.

A população cresceu bem menos que as casas. O mesmo Censo 2022 mostrou que a média de moradores por domicílio caiu para 2,8, contra 3,3 em 2010, pelo IBGE.

Famílias menores pedem mais portas para o mesmo número de pessoas. A demanda por moradia sobe mesmo quando a população quase não cresce.

Domicílios ocupados, Censo 2010perto de 57 milhões
Domicílios ocupados, Censo 2022perto de 72 milhões
Domicílios novos por ano, média do períodoperto de 1,2 milhão
Entregas do Minha Casa Minha Vida por ano, 2009 a 2020perto de 420 mil

A maior parte desses lares novos se resolve no mercado: financiamento bancário, construção por conta própria, compra de imóvel usado. A parte que não se resolve vai para o estoque que a Fundação João Pinheiro mede.

Foi assim que o déficit subiu de perto de 5,7 milhões em 2016 para 6,2 milhões em 2022, mesmo com o programa entregando chaves todos os anos. A entrada na fila andou mais rápido que a saída.

“A cidade é o lugar onde a desigualdade se torna visível no espaço.”

Ermínia Maricato, Brasil, cidades: alternativas para a crise urbana, 2001

Ermínia Maricato, arquiteta e professora da Universidade de São Paulo, foi secretária-executiva do Ministério das Cidades entre 2003 e 2005. O livro dela trata da cidade informal, que cresce fora do mapa oficial.

O Censo 2022 trouxe ainda um contraste. Pelo IBGE, perto de 11 milhões de domicílios estavam vagos no dia da contagem, quase o dobro do déficit. Boa parte fica longe de onde a fila mora, em cidades que perderam gente ou em imóveis caros demais para quem precisa. Casa vaga no sertão não resolve barraco na periferia de São Paulo.

 

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III  Refaça a Conta

O estoque da sua cidade em 3 passos

1. O déficit: abra o site da Fundação João Pinheiro, procure o estudo Déficit Habitacional no Brasil mais recente e anote o número do seu estado ou da sua região metropolitana.

2. O ritmo: abra o painel de dados do Ministério das Cidades sobre o Minha Casa Minha Vida e anote quantas unidades foram entregues no mesmo estado em um ano.

3. A conta: divida o déficit pelas entregas do ano. O resultado é o número de anos para zerar a fila local, sem contar as famílias novas.

Um exemplo com o Brasil: 6,2 milhões de domicílios divididos por 420 mil entregas dão 14,8 anos, os 15 anos da terceira coluna.

Um exemplo com o ritmo de 200 mil: os mesmos 6,2 milhões divididos por 200 mil dão 31 anos, a segunda coluna.

Um exemplo com a entrada de famílias: se o país ganha 1,2 milhão de lares por ano e o mercado resolve a maior parte, basta que 420 mil fiquem sem solução para a fila parar de andar, com o programa no ritmo atual.

Três cuidados evitam conclusão errada.

O primeiro trata da data. A Fundação João Pinheiro publica o déficit com dois anos de atraso, porque depende da PNAD Contínua fechada; anote o ano do dado, não o ano da publicação.

O segundo trata de contratação e entrega. O governo costuma anunciar unidades contratadas, que viram obra; a chave só chega anos depois, e algumas obras param no meio. Use sempre a entrega.

O terceiro trata da escala. O déficit de um estado inteiro esconde diferenças grandes entre a capital e o interior; a Fundação João Pinheiro separa as regiões metropolitanas, e vale usar o recorte mais perto de você.

Com a conta pronta, compare os anos da sua cidade com os 15 do Brasil. O resultado mostra se a fila local anda mais rápido ou mais devagar que a do país.

15 anos. Foi o déficit de 6,2 milhões de domicílios dividido pelas 420 mil entregas anuais do Minha Casa Minha Vida (Fundação João Pinheiro, 2024; Ministério do Desenvolvimento Regional, 2020).

"Quantos anos a fila de moradia da sua cidade leva para zerar no ritmo de hoje?"

 
 
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Quiz da edição

Pela conta desta edição, em quantos anos o déficit de 6,2 milhões de domicílios zera se o país entregar 420 mil moradias por ano?

A6 anos
B31 anos
C15 anos
D62 anos

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