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O plano de saúde custa 2,8 vezes o SUS por pessoa
O SIOPS aponta R$ 174,00 de gasto público em saúde por habitante ao mês, e a ANS marca R$ 486,00 na mensalidade média do plano individual.
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Gasto público por pessoa contra plano, R$/mês
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São sete da manhã e a fila da unidade básica de saúde de um bairro de Goiânia já dobra a esquina. Quinze metros adiante, num prédio de vidro, uma recepcionista confirma a consulta de quem chegou com carteirinha na mão. As duas pessoas vão ver um clínico geral hoje. Nenhuma das duas sabe quanto custa a consulta que vai receber.
O preço existe, e está escrito em dois sistemas públicos de informação que quase nunca são lidos lado a lado. Um deles guarda o que o Estado brasileiro gasta com saúde. O outro guarda o que o consumidor paga a uma operadora privada para ter a mesma consulta marcada por telefone.
O primeiro sistema chama-se SIOPS, o Sistema de Informações sobre Orçamentos Públicos em Saúde. Ele reúne, todo ano, o quanto a União, os 26 estados, o Distrito Federal e os mais de 5.500 municípios empenharam em ações e serviços públicos de saúde, do posto de bairro ao hospital universitário.
O segundo é o painel de preços da agência reguladora do setor, a ANS, que acompanha o valor cobrado nos contratos de plano de saúde vendidos a pessoas físicas, o chamado plano individual ou familiar, aquele que alguém contrata sozinho, sem empresa por trás.
As duas bases nasceram para finalidades diferentes e usam unidades diferentes. Uma trabalha em orçamento anual bilionário; a outra, em boleto mensal de família. Colocar as duas na mesma régua exige um trabalho simples e chato: dividir o orçamento pelo número de habitantes e dividir por doze.
Feita a divisão, algo incômodo aparece. As duas quantias descrevem exatamente a mesma pessoa. O contribuinte que paga o imposto que financia o primeiro número é o mesmo que assina o boleto do segundo, e boa parte dos brasileiros com plano continua usando o serviço público para vacina, urgência, transplante e medicamento de alto custo.
Não se trata aqui de reajuste anual nem de percentual de aumento de contrato, tema que já rendeu bastante manchete. A pergunta de hoje é sobre o valor absoluto: quanto vale, em reais por mês, cada uma das duas portas de entrada.
O gráfico de hoje coloca as duas séries convertidas na mesma unidade, reais por pessoa por mês, e ainda abre o lado público nos três entes que bancam a conta.
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I O Gráfico do Dia
R$ 174,00 contra R$ 486,00 por pessoa
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Cada brasileiro carrega dois preços de saúde ao mesmo tempo.
O SIOPS registra R$ 174,00 de gasto público em saúde por habitante ao mês, somando União, estados e municípios. O painel de preços da ANS marca R$ 486,00 de mensalidade média no plano individual. A razão entre os dois é de 2,8 vezes.
O gráfico tem cinco barras. Plano individual em R$ 486,00, o gasto público total em R$ 174,00 e, abertos abaixo dele, os municípios com R$ 62,00, a União com R$ 60,00 e os estados com R$ 52,00 por habitante ao mês.
A leitura mais direta é a da distância. Uma pessoa que contrata um plano individual paga, sozinha, R$ 312,00 a mais por mês do que o país inteiro gasta com ela na rede pública, e continua pagando o imposto que financia a rede pública.
A abertura do lado público desmonta um engano frequente. A União não banca a maior fatia do gasto em saúde no Brasil. Os municípios gastam mais que ela, com uma diferença pequena mas persistente, e o conjunto de estados fica em último.
Essa ordem tem origem em regra escrita. A Emenda Constitucional 29 e a Lei Complementar 141 fixaram pisos diferentes para cada ente: 15% da receita própria para municípios, 12% para estados e uma regra de correção pela receita corrente líquida para a União.
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Municípios respondem pela atenção básica, a porta larga do sistema, aquela dos postos, agentes comunitários e vacinação de rotina. É o pedaço mais barato por atendimento e o mais caro em volume, porque atende quase todo mundo, quase sempre.
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A comparação, porém, não é entre produtos iguais. O plano individual entrega consulta marcada, exame com hora e rede credenciada; o gasto público entrega vigilância sanitária, vacinação, transplante, urgência e medicamento de alto custo para 213 milhões de pessoas, com ou sem carteirinha.
O plano individual é também a modalidade mais cara do mercado privado. Ele não tem massa de negociação, não dilui risco em folha de empresa e responde por uma parcela minoritária dos contratos, atrás dos planos coletivos empresariais.
Vale registrar o que a série não mede. O gasto por habitante do SIOPS é uma média nacional e esconde uma dispersão enorme entre municípios ricos e pobres, além de não separar investimento em obra de custeio de folha e insumo.
Também não há aqui julgamento sobre qualidade de atendimento. As duas quantias descrevem preço e despesa, nunca tempo de espera, desfecho clínico ou satisfação de quem foi atendido em qualquer uma das duas filas.
Fonte e método: gasto público em ações e serviços públicos de saúde apurado pelo SIOPS do Ministério da Saúde, dividido pela população estimada e por doze, contra a mensalidade média de contratos individuais e familiares no painel de preços da ANS, referência de 2026.
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II A Conta do Mês
A diferença de R$ 312,00 todo mês
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A distância entre as duas portas é de R$ 312,00 por mês e R$ 3.744,00 por ano, por pessoa. Numa família de quatro, o plano individual cobra R$ 1.944,00 mensais onde o orçamento público aplica R$ 696,00.
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A conta que sustenta o número é aritmética de duas linhas. O gasto público por habitante sai da despesa consolidada dividida pela população, o que dá R$ 2.088,00 por ano, e a divisão por doze devolve os R$ 174,00 mensais da barra do gráfico.
Do outro lado, a mensalidade média já nasce mensal, então basta multiplicar. Os R$ 486,00 viram R$ 5.832,00 por ano de desembolso direto de quem contrata sozinho.
Postas na mesma tabela, as duas séries ficam assim:
| Gasto público por habitante, por mês | R$ 174,00 |
| Mensalidade média do plano individual | R$ 486,00 |
| Diferença mensal por pessoa | R$ 312,00 |
| Diferença anual por pessoa | R$ 3.744,00 |
| Razão entre plano e gasto público | 2,8 vezes |
A quarta linha é a que muda o comportamento de quem lê. R$ 3.744,00 por ano é a ordem de grandeza de um décimo terceiro inteiro de quem ganha três salários mínimos, gasto todo ano por uma única pessoa da casa.
Uma família de quatro pessoas com planos individuais desembolsa R$ 23.328,00 por ano. O mesmo grupo de quatro tem, do lado público, R$ 8.352,00 anuais de gasto orçamentário associado, financiados por tributo que aquela família também paga.
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"A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos."
Assembleia Nacional Constituinte, Constituição Federal, artigo 196, ano de 1988
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O texto constitucional explica por que as duas quantias não são substitutas. O gasto público cobre toda a população por obrigação legal, inclusive quem tem plano, então ninguém troca uma coisa pela outra: quem contrata plano paga a segunda porta sem deixar de financiar a primeira.
Existe uma contrapartida que a conta não pode ignorar. O gasto público por habitante é média sobre 213 milhões de pessoas, e a maioria delas usa pouco o sistema em um ano típico, enquanto uma minoria com doença crônica ou internação consome múltiplos daquele valor.
A mesma ressalva vale para o lado privado. Mensalidade média esconde faixa etária: um contrato individual acima de 59 anos custa várias vezes o de uma pessoa de 25, e é justamente na faixa mais velha que o uso do serviço aumenta.
Nenhum dos dois números aparece em qualquer boleto ou extrato. O de baixo some dentro do imposto embutido no preço de tudo que se compra, e o de cima só é percebido quando cai a fatura.
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