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O mínimo recorde e as 131 horas da cesta
O salário mínimo chegou a R$ 1.621,00, o maior valor nominal já pago, e a cesta de São Paulo passou a exigir 131 horas e 2 minutos de trabalho.
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Horas de trabalho pela cesta de São Paulo, 1994 a 2026
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Em janeiro, o salário mínimo brasileiro passou a valer R$ 1.621,00. É o maior valor nominal já pago no país, com reajuste de 6,79% sobre os R$ 1.518,00 de 2025, fixado pelo Decreto 12.797 de dezembro. A manchete escreveu recorde, e a manchete estava certa.
Real é uma unidade que se mexe. O mesmo número impresso na carteira compra quantidades diferentes em janeiro e em junho, e quem recebe o piso percebe a diferença no caixa do mercado, nunca no texto do decreto.
Existe uma segunda unidade, e ela não se mexe: a hora de trabalho. Dura sessenta minutos em 1994 e dura sessenta minutos em 2026. Não depende de índice, de deflator nem de âncora cambial, e por ser assim ela deixa comparar dois anos separados por três décadas sem nenhum ajuste no meio.
O DIEESE faz essa troca todo mês, e faz do jeito mais simples que existe. Pega o custo da cesta básica de alimentos de uma capital, divide pelo valor da hora do salário mínimo numa jornada de 220 horas, e publica o resultado em horas e minutos. Saem dois números públicos, sem opinião entre eles.
A cesta que entra na conta tem nome e idade. É a ração essencial mínima do Decreto-Lei 399, de 1938: treze produtos em São Paulo, do arroz ao café, na quantidade que sustenta um adulto por um mês inteiro. A lista mudou pouco em quase noventa anos, e é por ela que a comparação de 2026 com 1994 fica honesta.
Quem faz a compra do mês conhece a cena por outro caminho. O carrinho tem os mesmos itens do ano passado, o cupom vem maior, e a conta que fica na cabeça na volta pra casa é quanto do salário aquele cupom levou.
A série de São Paulo é a mais longa que o instituto mantém, e ela responde uma pergunta que o decreto não responde: o recorde em reais encurtou ou alongou o mês de trabalho que a comida cobra? O gráfico de hoje traz a série inteira, com a fonte e o período escritos dentro da imagem.
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I O Gráfico do Dia
O mês inteiro não pagava a cesta
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Um salário mínimo que não pagava a comida do mês, e três décadas de série depois. Veja onde junho de 2026 cai no recorte inteiro.
Em julho de 1994, o mês em que o real entrou em circulação, a cesta básica de São Paulo custava R$ 67,40, e o salário mínimo era R$ 64,79. O salário inteiro do mês não pagava a comida do mês, e faltavam R$ 2,61 pra fechar a conta.
Traduzido na unidade que não se mexe, o mês de 220 horas de jornada terminava sem a cesta comprada. Eram 228 horas e 52 minutos de trabalho pra levar os treze itens pra casa, quase nove horas além do mês legal inteiro.
A série anda pra baixo nos anos seguintes. Em 1995, um salário mínimo já comprava 1,02 cesta em São Paulo, e em 1996 comprava 1,14. O piso passou a cobrir a comida do mês e a sobrar alguma coisa, pela primeira vez desde a virada da moeda.
A queda tem explicação dos dois lados da divisão. O piso nacional foi reajustado acima da inflação em boa parte do período, e o preço dos alimentos passou por safras fartas que derrubaram o custo da cesta em reais. Quando os dois lados andam no mesmo sentido, o tempo de trabalho encolhe rápido.
Trinta anos depois, a média de 2024 mostra a cesta paulistana a R$ 813,46 com o piso em R$ 1.412,00: 1,74 cesta por salário, perto de 126 horas e 45 minutos de trabalho pelo mesmo carrinho.
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O trecho recente é o que a manchete de janeiro não mostra: 127 horas e 56 minutos em junho de 2025, 129 horas e 14 minutos em maio de 2026, e 131 horas e 2 minutos em junho de 2026.
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Os três pontos vêm da mesma pesquisa, com a mesma cesta e a mesma jornada de 220 horas. Entre um junho e o outro, o salário mínimo subiu de R$ 1.518,00 para R$ 1.621,00, e o tempo de trabalho pela cesta subiu junto com ele.
A diferença de três horas e seis minutos entre os dois junhos parece pequena no papel. Ela é o resultado de um reajuste de 6,79% no salário contra uma alta de 9,37% na cesta paulistana em doze meses, e a corrida foi vencida pelo mercado.
São Paulo terminou junho como a capital mais cara das vinte e sete pesquisadas, com a cesta a R$ 965,47. Aracaju ficou no outro extremo, a R$ 630,40, o equivalente a 85 horas e 34 minutos. A média das vinte e sete foi de 105 horas e 51 minutos, contra 104 horas e 3 minutos um ano antes.
A distância entre as capitais também é da série, e ela é grande: quem recebe o mesmo piso em Aracaju e em São Paulo trabalha 45 horas e 28 minutos a mais na capital paulista pela mesma lista de compras.
Fonte e período: Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, do DIEESE em parceria com a Conab, dados de junho de 2026, divulgados em 8 de julho de 2026. O eixo do gráfico começa no zero, e a série aparece inteira, de julho de 1994 a junho de 2026.
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II A Conta do Mês
Dezesseis dias de jornada pela comida
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Na unidade que não se mexe, a comida do mês custa 131 horas e 2 minutos em São Paulo. São dezesseis dias de jornada de oito horas, mais três horas do décimo sétimo, antes de sobrar um minuto pro aluguel, pro transporte ou pra qualquer outra linha do orçamento.
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A conta é literal. Numa escala de oito horas por dia, 131 horas e 2 minutos consomem dezesseis dias inteiros e ainda avançam três horas no dia seguinte, dentro de um mês útil de vinte e dois dias.
Do lado do contracheque, a mesma cesta come 64,39% do salário mínimo líquido, o valor que sobra depois do desconto de 7,5% da Previdência. De cada R$ 100,00 que caem na conta, R$ 64,39 saem em treze itens de alimentação.
Um ano antes o percentual era 62,87%, e em maio deste ano foi 63,50%. A linha sobe devagar e sobe sempre, e ela sobe num ano em que o reajuste do piso ficou acima da inflação medida pelo INPC.
A cesta do DIEESE alimenta uma pessoa. O instituto usa a mesma pesquisa pra calcular o salário mínimo necessário de uma família de quatro, com moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência somados à alimentação.
Em junho de 2026 o valor calculado deu R$ 8.110,92, exatamente cinco vezes o piso vigente. Em junho de 2025 era R$ 7.416,07, ou 4,89 vezes o piso da época. A distância entre o mínimo pago e o mínimo calculado aumentou dentro do ano do recorde.
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"O salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social."
Constituição da República Federativa do Brasil, artigo 7º, inciso IV, 1988
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A régua da comparação está escrita na Constituição, e a pesquisa mede a distância entre o texto e o caixa do mercado. A medição de junho põe cinco pisos entre um e outro.
Dentro da cesta paulistana, o movimento de doze meses foi desigual. O feijão carioca subiu 49,29%, a batata 35,72%, o tomate 27,90% e a carne bovina de primeira 10,65%. No sentido contrário, o açúcar refinado caiu 22,63%, o arroz agulhinha 18,07% e o café em pó 17,96%.
A soma dos dois movimentos deu alta de 9,37% em doze meses e de 14,13% no acumulado entre dezembro de 2025 e junho de 2026. As quedas do café e do arroz não cobriram a alta do feijão, do tomate e da batata.
Cada uma das treze linhas tem uma safra, um transporte e um câmbio por trás. Quem recebe o piso não negocia preço de tomate no atacado, e a única variável na mão dele é a quantidade de horas que entrega.
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III Refaça a Conta
Troque 1.621 pelo seu salário
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1. O valor da sua hora: divida o salário bruto do mês por 220, a jornada mensal que a pesquisa usa como referência. No piso, R$ 1.621,00 divididos por 220 dão R$ 7,37 por hora trabalhada.
2. O custo da sua cesta: pegue o cupom da compra do mês, o de verdade, com o que você leva pra casa. Se preferir a referência pública, use os R$ 965,47 de São Paulo em junho.
3. A sua conta: divida o custo pelo valor da hora. Os R$ 965,47 divididos por R$ 7,37 dão 131 horas, o mesmo número que o instituto publicou com dois minutos a mais de precisão.
Duas advertências antes de comparar. A jornada de 220 horas é a referência legal, e quem faz hora extra ou trabalha por conta própria usa as horas que cumpre de verdade. O número da pesquisa vale pra um adulto, então uma casa de quatro pessoas multiplica a conta antes de olhar a série.
O resultado é a sua posição dentro do gráfico. Abaixo de 105 horas e 51 minutos, você está melhor que a média das vinte e sete capitais. Acima de 131 horas e 2 minutos, a sua compra do mês pesa mais que a compra mais cara do país no mês passado.
Quem ganha acima do piso encolhe o resultado na mesma proporção. Um salário de R$ 3.242,00 dobra o valor da hora e derruba a conta pra 65 horas e 31 minutos, com a mesma cesta e o mesmo mercado.
A divisão funciona pra qualquer despesa fixa. Troque a cesta pelo aluguel, pela mensalidade da escola ou pela conta de luz, e cada linha do orçamento passa a ter um preço em horas do seu mês.
Refeita com o seu número, ela também responde ao reajuste. Guarde o resultado de hoje e repita a divisão em janeiro, quando o próximo piso for anunciado. Se as horas caírem, o reajuste chegou ao mercado; se subirem, ele ficou no papel.
A série é pública e a fórmula tem dois termos. Qualquer pessoa com o cupom do mês e uma calculadora chega ao mesmo resultado.
No caixa do mercado de São Paulo, em junho, a cesta de treze itens saiu por R$ 965,47. Quem ganha o piso levou o carrinho pra casa depois de dezesseis dias de jornada, e voltou ao mesmo caixa no mês seguinte.
O recorde foi anunciado em reais, e o mercado continuou cobrando em horas.
"Quantas horas do seu mês a compra do mês levou?"
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Quiz da edição
Em julho de 1994, mês em que o real entrou em circulação, o salário mínimo não cobria a cesta básica de São Paulo. Quanto faltava pra fechar a conta?
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