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O etanol, a gasolina e a regra dos 70% na bomba
Na semana da ANP, a gasolina saiu a R$ 6,42 e o etanol a R$ 4,49. A divisão dá 69,9%, e vinte e uma unidades da federação passaram do limite.
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Paridade etanol/gasolina, ANP, agosto de 2026
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Todo posto de bandeira dupla anuncia dois preços na mesma placa, um em cima do outro, e a escolha entre os dois bicos leva menos tempo do que abrir a tampa do tanque. O motorista olha o número menor e abastece.
O número menor engana porque os dois líquidos não andam a mesma distância. Um litro de etanol hidratado carrega perto de dois terços da energia de um litro de gasolina, e o motor flex devolve a diferença em quilômetros rodados.
Daí saiu a regra de bolso que circula desde que o flex chegou às concessionárias, em 2003. Se o etanol custar menos de 70% do preço da gasolina, o álcool compensa. Se passar de 70%, a gasolina volta a sair mais barata por quilômetro.
Os 70% não são lei nem arredondamento gratuito. São a média de rendimento da frota flex brasileira: o carro típico anda cerca de 30% menos com álcool, e o desconto no preço precisa cobrir exatamente essa perda para o troco empatar.
A frota que depende da conta é quase toda a frota. Mais de 80% dos carros de passeio vendidos no país desde 2010 saíram de fábrica com motor flex, e cada um deles encara a mesma placa a cada duas semanas.
A ANP publica um levantamento de preços por semana, posto por posto, e divulga a média de cada unidade da federação. É a única série pública que permite dividir um preço pelo outro sem depender do posto da esquina.
A divisão é o assunto de hoje. Preço do etanol dividido pelo preço da gasolina, estado por estado, comparado com a linha dos 70%, e o resultado convertido em reais por mês para quem roda mil quilômetros.
O gráfico de hoje põe a média nacional ao lado de cinco unidades da federação, com o eixo em porcentagem e a linha de 70% marcada dentro da imagem. A distância entre cada barra e essa linha é o que o resto da edição transforma em dinheiro.
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I O Gráfico do Dia
A paridade nacional parou em 69,9%
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Uma divisão simples entre dois preços da mesma semana.
Na semana medida pela ANP, o litro da gasolina comum saiu a R$ 6,42 e o do etanol hidratado a R$ 4,49. A divisão entre os dois dá 69,9%, um décimo de ponto abaixo da linha que separa as duas escolhas.
A média nacional não decide nada sozinha. Ela é o resultado de 27 mercados diferentes, com frete próprio até a usina e concorrência própria entre postos, e o motorista abastece em um deles, nunca na média.
Seis unidades da federação fecharam a semana abaixo de 70%. São Paulo marcou 65,2%, Goiás 65,5%, Mato Grosso 66,9%, Mato Grosso do Sul 67,4%, Distrito Federal 68,8% e Minas Gerais 69,6%.
As outras vinte e uma passaram do limite. O Rio de Janeiro registrou 74,9%, a Bahia 73,9%, o Rio Grande do Sul 74,2%, o Ceará 74,7%, o Pará 77,3% e o Amazonas 80,5%, o maior valor do levantamento.
O intervalo entre as duas pontas mede o tamanho do país no assunto. São 15,3 pontos percentuais entre São Paulo e o Amazonas, distância que nenhuma média nacional consegue representar.
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A cana está a mais de mil quilômetros de Manaus, e a estrada aparece inteira no preço do litro.
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A tributação parou de explicar a diferença. Desde 2023 o ICMS da gasolina e do etanol é cobrado em valor fixo por litro, igual em todo o país, e o que sobra para separar um estado do outro é o frete e a concorrência entre postos.
A geografia da cana faz o resto. Quase toda a produção de etanol hidratado sai do centro-sul, o transporte é rodoviário, e o litro que chega ao Norte carrega mais estrada no preço do que o litro vendido a cem quilômetros do canavial.
A gasolina não sobe do mesmo jeito. Ela chega às bases de distribuição por duto e por navio, e a diferença de frete entre uma capital do Sudeste e uma do Norte é menor do que a do álcool.
A gasolina comum vendida na bomba já é uma mistura. Ela leva 30% de etanol anidro por determinação do Conselho Nacional de Política Energética, em vigor desde agosto de 2025, e o preço dos dois combustíveis anda parcialmente junto por causa da mistura.
A linha dos 70% não muda de lugar quando o preço sobe. Ela compara dois preços entre si, então uma alta que atinge os dois na mesma proporção mantém a escolha onde estava, e só o movimento desigual troca o bico.
Fonte e período: preço médio de revenda ao consumidor da gasolina comum e do etanol hidratado, Levantamento de Preços de Combustíveis da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, semana de 2 a 8 de agosto de 2026. A paridade é o preço do etanol dividido pelo da gasolina, em porcentagem. O eixo do gráfico começa no zero.
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II A Conta do Mês
Mil quilômetros e R$ 84,05 de diferença
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Com o carro rodando mil quilômetros por mês, o etanol economizou R$ 35,36 em São Paulo e custou R$ 84,05 a mais no Amazonas. É a mesma conta, com dois preços diferentes na placa.
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A conta tem três entradas. O consumo do carro com cada combustível, o preço do litro de cada um no estado, e a quilometragem do mês.
A primeira entrada é o carro. O flex do exemplo faz 12 km por litro de gasolina e 8,4 km por litro de etanol, os 70% de rendimento que dão nome à regra.
A segunda entrada é o volume. Mil quilômetros pedem 83,33 litros de gasolina ou 119,05 litros de etanol, e a diferença de 35,72 litros é o que o desconto no preço precisa pagar.
A terceira entrada é o preço do estado. Em São Paulo, os 83,33 litros de gasolina custaram R$ 517,50 e os 119,05 litros de etanol custaram R$ 482,14, uma economia de R$ 35,36 no mês.
No Amazonas o sinal se inverte. Os mesmos mil quilômetros custaram R$ 560,00 de gasolina e R$ 644,05 de etanol, R$ 84,05 a mais para quem encheu o tanque com álcool.
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"A ANP terá como finalidade promover a regulação, a contratação e a fiscalização das atividades econômicas integrantes da indústria do petróleo, do gás natural e dos biocombustíveis."
Lei 9.478, de 6 de agosto de 1997, artigo 8º, caput, com a redação da Lei 11.097, de 13 de janeiro de 2005
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A média nacional quase empata. Com gasolina a R$ 6,42 e etanol a R$ 4,49, os mil quilômetros custaram R$ 535,00 no primeiro bico e R$ 534,52 no segundo, uma diferença de 48 centavos no mês inteiro.
O ano multiplica o que o mês esconde. Os R$ 35,36 de São Paulo viram R$ 424,32 em doze meses, e os R$ 84,05 do Amazonas viram R$ 1.008,60, sempre com a mesma quilometragem.
Rio de Janeiro e Bahia ficam no meio do caminho. A mesma rodagem custou R$ 37,74 a mais com etanol no Rio e R$ 30,36 a mais na Bahia, valores menores que o do Norte e ainda assim contra o álcool.
Goiás repete o desenho de São Paulo. Os mil quilômetros saíram por R$ 524,17 de gasolina e R$ 490,48 de etanol, R$ 33,69 de economia mensal para o mesmo carro do exemplo.
A quilometragem escala junto. Quem roda 2.000 km por mês dobra os dois números, e quem roda 500 km corta pela metade, porque a diferença é proporcional ao volume abastecido.
O tanque cheio não muda a conclusão. Encher 40 litros de etanol custa menos que encher 40 litros de gasolina em qualquer estado da lista, e a comparação só fica honesta quando o custo é medido por quilômetro rodado, não por tanque.
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