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O brasileiro trabalha 118 dias por ano para os três governos

Pela Receita Federal, a carga tributária foi de 32,4% do PIB em 2023. Por habitante, dá perto de R$ 1.450 por mês.

Gráfico da carga tributária bruta em % do PIB pela Receita Federal: 27% em 1995, 33% em 2005, 32% em 2015 e 32,4% em 2023.

Carga tributária em % do PIB, 1995 a 2023

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R$ 1.450 por mês. Foi quanto a arrecadação de União, estados e municípios somou, em média, por brasileiro em 2023, pela conta da Receita Federal.

O número sai de uma divisão simples. A Receita publica todo ano o estudo Carga Tributária no Brasil, com tudo o que as três esferas de governo arrecadaram em impostos, taxas e contribuições. Em 2023, o total ficou perto de R$ 3,5 trilhões.

Dividido pelos perto de 203 milhões de habitantes contados pelo Censo de 2022, o total dá perto de R$ 17,4 mil por pessoa no ano. Em doze parcelas, R$ 1.450.

A conta inclui bebê, aposentado e desempregado. Ninguém paga exatamente esse valor: é a média do país, sem o boleto de alguém por trás. Serve para dar tamanho a um número que, em trilhões, ninguém consegue enxergar.

O mesmo dado tem uma segunda leitura. A Receita mede a carga como proporção do PIB (Produto Interno Bruto, a soma de tudo o que o país produz em um ano). Em 2023, a proporção foi de 32,4%.

Se perto de um terço da renda do país vai para os governos, perto de um terço do ano de trabalho também vai. Os 32,4% aplicados a 365 dias dão perto de 118 dias. Em linha reta pelo calendário, o brasileiro médio trabalha para as três esferas até 28 de abril.

O número fica abaixo do calculado pelo IBPT, o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação, que costuma passar de 140 dias. A diferença está no método: o IBPT mede o peso sobre a renda das famílias, e a Receita mede sobre o PIB inteiro. Esta edição segue a conta oficial.

Os 118 dias não nasceram em 2023. Em 1995, primeiro ano da série comparável, a carga era de perto de 27% do PIB, ou 99 dias. A conta ganhou quase três semanas em menos de três décadas.

O gráfico de hoje mostra quando esse salto aconteceu e onde a curva parou de subir.

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I  O Gráfico do Dia

Dez anos de subida e um platô

Pela Receita Federal, a carga tributária bruta foi de perto de 27% do PIB em 1995, 33% em 2005, 32% em 2015 e 32,4% em 2023.

Os quatro pontos contam duas fases. De 1995 a 2005, a linha subiu seis pontos em dez anos. De 2005 a 2023, andou de lado, oscilando entre 31% e 34% sem romper nenhum dos dois limites.

A primeira fase tem causa conhecida. Com o Plano Real, a inflação parou de corroer a arrecadação entre o fato gerador e o pagamento, e o governo passou a receber o valor cheio do imposto.

Depois vieram as contribuições. A CPMF, cobrada sobre movimentação bancária, começou em 1997. A alíquota da Cofins subiu de 2% para 3% em 1999 e, entre 2003 e 2004, a cobrança mudou de regime e passou a 7,6% para boa parte das empresas.

Contribuição tem uma vantagem para a União: ao contrário do Imposto de Renda, não precisa ser dividida com estados e municípios. Por esse motivo, foi o instrumento mais usado para fechar as contas federais do período.

A segunda fase começou com uma perda. Em dezembro de 2007, o Senado derrubou a prorrogação da CPMF, e cerca de 1,3 ponto do PIB saiu da arrecadação a partir de 2008.

Mesmo assim, a carga não caiu de patamar. Outros tributos cobriram a maior parte do buraco, e a crise de 2015 e 2016 derrubou arrecadação e PIB juntos, o que deixou a proporção quase parada.

O pico da série veio em 2022, perto de 33,7%, puxado pelo preço alto do petróleo e do minério, que encheu os cofres com royalties e lucro de empresa exportadora. Em 2023, com as commodities mais baratas, a carga voltou a 32,4%.

Toda essa série mede a mesma definição de tributo, escrita na lei desde 1966.

“Tributo é toda prestação pecuniária compulsória, em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir, que não constitua sanção de ato ilícito, instituída em lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada.”

Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966, Código Tributário Nacional, art. 3º

Multa fica fora, por ser sanção. Contribuição ao FGTS entra, por ser compulsória e instituída em lei. A Receita aplica esse critério às três esferas, ano a ano, e por isso a comparação de 1995 com 2023 se sustenta.

Fonte e método: carga tributária bruta das três esferas, Receita Federal, Carga Tributária no Brasil, edições de 1995 a 2023; PIB pelas Contas Nacionais do IBGE; valores arredondados.

 
 

II  A Conta do Mês

Do PIB ao bolso em reais e em dias

A carga ficou parada em proporção desde 2005, mas o peso dela recai sobretudo no consumo, onde quem ganha menos entrega uma parte maior da renda.

A conta desta faixa usa duas multiplicações e uma divisão. A primeira multiplicação dá o total: a carga em proporção vezes o PIB do ano. A divisão dá o valor por habitante: o total pela população.

Em 2023, o PIB do Brasil ficou perto de R$ 10,9 trilhões. Vezes 32,4%, dá perto de R$ 3,5 trilhões. Divididos por 203 milhões de pessoas, R$ 17,4 mil por ano, ou R$ 1.450 por mês.

A segunda multiplicação dá os dias: a carga vezes 365. Ela dispensa a correção pela inflação, porque compara proporção com proporção. Por esse motivo, serve para colocar 1995 e 2023 lado a lado.

199527%, 99 dias
200533%, 120 dias
201532%, 117 dias
202233,7%, 123 dias
202332,4%, 118 dias

Os reais por mês dos anos antigos ficam fora da tabela de propósito. Em 1995, o valor por habitante, em moeda da época, daria um número pequeno sem sentido para o leitor de hoje. Para comparar em reais, seria preciso corrigir cada ano pelo IPCA.

A proporção esconde de onde o dinheiro vem. Pela Receita, os tributos sobre bens e serviços respondem por perto de 40% de toda a carga. Folha de salários e previdência ficam com cerca de um quarto. Renda, lucro e ganho de capital, com pouco mais de um quinto.

O peso no consumo muda quem paga. Imposto embutido no preço do arroz custa o mesmo para quem ganha um salário mínimo e para quem ganha cinquenta. Em proporção da renda, o primeiro entrega muito mais.

A Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE mostra o efeito: as famílias mais pobres gastam quase toda a renda em consumo, e as mais ricas poupam e investem uma parte. Quanto maior o peso do consumo na carga, mais a conta se inclina para baixo.

A comparação de fora ajuda a dar escala. Pela OCDE, a média dos países do grupo ficou perto de 34% do PIB em 2023. O Brasil está perto dessa média no total, mas cobra mais do consumo e menos da renda do que a maioria deles.

A reforma tributária aprovada em 2023 mexe na forma, sem prometer mexer no tamanho. A Emenda Constitucional nº 132 troca cinco tributos sobre consumo por um imposto sobre valor agregado dividido em duas partes, com transição até 2033.

 

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III  Refaça a Conta

Os seus dias em 4 passos

1. O PIB: no Sidra, o banco de tabelas do IBGE, abra as Contas Nacionais e anote o PIB nominal do ano escolhido, em reais correntes.

2. A carga: no site da Receita Federal, abra o estudo Carga Tributária no Brasil do mesmo ano e anote a carga bruta em percentual do PIB.

3. Os reais por mês: multiplique o PIB pela carga, divida pela população estimada pelo IBGE no ano e divida o resultado por 12.

4. Os dias: multiplique a carga por 365. O resultado é quantos dias do ano, na média, a produção do país vai para os três governos.

Com os dados de 2023, o caminho fica assim. R$ 10,9 trilhões vezes 0,324 dá R$ 3,53 trilhões. Divididos por 203 milhões, R$ 17.390. Divididos por 12, R$ 1.449. E 0,324 vezes 365 dá 118,3 dias.

Para achar o dia do calendário, some os dias de cada mês até chegar ao total. Janeiro tem 31, fevereiro chega a 59, março a 90. Os 28 que faltam caem em 28 de abril.

Três cuidados evitam conclusão errada.

O primeiro trata da revisão do PIB. O IBGE revisa as Contas Nacionais por até dois anos, e a Receita refaz a carga quando o PIB muda. Use sempre a edição mais recente do estudo, mesmo para anos antigos.

O segundo trata da população. Entre dois censos, o IBGE publica estimativas, e o Censo de 2022 contou menos gente do que a estimativa anterior previa. Um valor por habitante calculado com a população antiga sai menor do que o certo.

O terceiro trata da sua renda. Os 118 dias são a média do país. Para uma conta pessoal, troque o PIB pela sua renda do ano e a carga pela soma do que você pagou: Imposto de Renda, INSS e o imposto embutido no que comprou. A última parte é estimada, e a nota fiscal traz o valor aproximado desde a Lei nº 12.741, de 2012.

“Quantos dias do seu ano a sua renda entrega aos três governos?”

118 dias por ano. Foi o trabalho do brasileiro médio para as três esferas em 2023 (Receita Federal, Carga Tributária no Brasil).

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual tributo, sozinho, arrecadou a maior fatia dessa conta em 2023?

★ RARO

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AOutubro de 2007
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O número engana. A série mostra

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