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ED 018

Mulher com superior completo ganha 66% do salário do homem

A razão de rendimento cai de 80% entre quem não terminou o fundamental para 66% entre diplomados, distância de R$ 2.652 por mês.

Gráfico de barras comparando a razão entre o rendimento médio de mulheres e homens por nível de instrução: fundamental incompleto em 80%, médio completo em 76%, superior completo em 66% e total Brasil em 78%, com a fonte escrita dentro da imagem.

Rendimento da mulher por nível de instrução

 

Toda vez que o IBGE bate à porta de um domicílio para a PNAD Contínua, ele faz uma pergunta que nenhum contracheque responde sozinho: quanto a pessoa recebeu no mês passado pelo trabalho principal.

A resposta entra numa amostra que cobre mais de 200 mil domicílios por trimestre e sustenta o retrato de renda mais completo do país. O dado não vem de imposto declarado nem de folha de pagamento registrada, vem da boca do trabalhador.

Isso permite uma operação simples e incômoda. Some o rendimento de todas as mulheres ocupadas, tire a média. Faça o mesmo com os homens ocupados. Divida um número pelo outro.

O resultado dessa divisão é uma razão, uma proporção sem unidade que diz quanto a mulher recebe para cada real recebido pelo homem. Não é uma opinião sobre o mercado de trabalho, é uma conta de duas médias.

A razão tem uma vantagem sobre a diferença absoluta. Ela sobrevive à inflação, ao reajuste do salário mínimo e à mudança de composição da ocupação, porque numerador e denominador andam juntos quando a economia mexe com todo mundo ao mesmo tempo.

Tem também uma armadilha conhecida. A média nacional junta a caixa de supermercado e a médica, o pedreiro e o engenheiro, e o número único que sai daí esconde o que acontece dentro de cada faixa de escolaridade.

Por causa dessa armadilha, o IBGE publica a mesma razão aberta por nível de instrução. Cada faixa compara pessoas com a mesma credencial formal, o que remove a explicação mais confortável para a distância entre os dois rendimentos.

A intuição diz que a proporção deveria melhorar conforme o diploma sobe, porque quanto maior a exigência de qualificação, mais o mercado precisaria remunerar competência em vez de qualquer outro critério.

O gráfico de hoje coloca a razão de cada faixa de instrução lado a lado, na mesma escala, com a média nacional ao lado para servir de referência.

O resto da edição converte a proporção da faixa mais escolarizada em reais por mês, transforma a diferença em meses de trabalho sem pagamento dentro do ano e deixa a divisão pronta para você refazer com o seu próprio contracheque.

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I  O Gráfico do Dia

80% no fundamental, 66% no superior completo

A proporção não melhora conforme o diploma sobe. Ela piora.

Entre quem não concluiu o ensino fundamental, a mulher recebe 80% do rendimento médio do homem. Entre quem tem superior completo, a proporção cai para 66%. A faixa mais escolarizada é a mais desigual das três.

O ensino médio completo fica no meio do caminho, com 76%. A média nacional de todas as pessoas ocupadas marca 78%, um valor que fica acima da faixa com diploma superior.

As quatro barras do gráfico descrevem a mesma conta feita quatro vezes, em recortes diferentes da mesma pesquisa. O que muda de barra para barra é apenas o grupo comparado.

A média nacional acima da faixa com diploma tem explicação aritmética. Os rendimentos das faixas de menor escolaridade são baixos para os dois sexos, e a distância entre duas quantias pequenas ocupa proporção menor do total.

Existe um piso institucional agindo nessa ponta. O salário mínimo comprime a variação possível na base da distribuição, porque quem contrata na formalidade não pode pagar abaixo dele, seja quem for a pessoa contratada.

À medida que a escolaridade sobe, esse piso deixa de operar. A remuneração passa a ser negociada caso a caso, com bônus, comissão, gratificação de função e valores que ninguém publica, e a dispersão possível dentro da mesma credencial se abre.

A faixa de superior completo é também a faixa em que o trabalho por conta própria de alta renda e o cargo de gestão pesam mais. As duas posições concentram a maior parte da variação de rendimento observada na pesquisa.

Vale registrar o que a comparação por nível de instrução não resolve. Mesmo diploma não significa mesma carreira, e a distribuição de mulheres e homens entre áreas de formação é bem diferente.

A pesquisa também não separa carga horária dentro do rendimento mensal. Se as jornadas médias divergem entre os dois grupos, parte da distância aparece na conta mensal sem aparecer na conta por hora trabalhada.

Nenhuma dessas ressalvas move o formato do gráfico. A direção é a mesma em todas as aberturas publicadas: quanto maior a credencial formal exigida, menor a proporção entre os dois rendimentos médios.

Fonte e método: razão entre o rendimento médio mensal real do trabalho principal de mulheres e de homens ocupados, por nível de instrução, PNAD Contínua do IBGE, média de 2025. O eixo do gráfico começa no zero.

 
 

II  A Conta do Mês

R$ 2.652 por mês e 4,1 meses sem pagamento

Com um rendimento médio masculino de R$ 7.800 na faixa de superior completo, a proporção de 66% coloca a mulher em R$ 5.148. A distância é de R$ 2.652 por mês, ou R$ 31.824 no ano.

Uma proporção só ganha peso quando volta para a unidade em que a pessoa vive. Ninguém paga aluguel em percentual, paga em reais, e a conversão muda o tamanho aparente do mesmo número.

A distância mensal por faixa de instrução tem quatro linhas quando você aplica cada proporção ao rendimento médio masculino correspondente:

Fundamental incompleto, 80% sobre R$ 2.100R$ 420
Médio completo, 76% sobre R$ 3.200R$ 768
Superior completo, 66% sobre R$ 7.800R$ 2.652
Total Brasil, 78% sobre R$ 3.500R$ 770

Existe uma segunda conversão, mais desconfortável que a primeira. Se a mulher recebe 66% do rendimento masculino na mesma faixa, ela precisa de doze meses para receber o que o homem recebeu em pouco menos de oito.

A operação é direta: doze meses multiplicados pela diferença de 34 pontos percentuais dão 4,1 meses. Na prática, dentro de um ano de trabalho, esse é o período em que a remuneração acumulada dela deixa de acompanhar a dele.

O mesmo cálculo aplicado às outras faixas devolve valores menores. O ensino médio completo produz 2,9 meses, o fundamental incompleto produz 2,4 meses, e a média nacional de todas as pessoas ocupadas produz 2,6 meses.

"O rendimento médio real habitual das mulheres correspondeu a 78,0% do rendimento dos homens, e essa razão é menor entre as pessoas com nível superior completo."

IBGE, Estatísticas de Gênero: Indicadores Sociais das Mulheres no Brasil, 3ª edição, 2024

A conversão em tempo tem uma limitação honesta. Ela é uma forma de reexpressar a proporção, não um evento de calendário: ninguém para de receber em setembro, o rendimento menor chega diluído nas doze parcelas do ano.

O efeito acumula rápido em uma vida de trabalho. Sobre trinta anos de carreira na faixa de superior completo, a diferença anual de R$ 31.824 soma perto de R$ 954.000 antes de qualquer correção monetária ou aplicação financeira.

A conta de aposentadoria carrega a mesma proporção adiante. A contribuição previdenciária incide sobre o rendimento recebido, então uma trajetória inteira remunerada em 66% da referência produz um benefício calculado sobre a mesma base menor.

Um detalhe do dado merece atenção antes de qualquer leitura apressada. Rendimento médio não é rendimento mediano, e a média é puxada pelos valores altos da ponta superior da distribuição.

Nada disso aparece na proposta de emprego que a pessoa recebe. O anúncio informa o cargo e a faixa, e o valor efetivamente combinado depende de uma negociação individual cujo resultado só aparece agregado, um ano depois, na pesquisa domiciliar.

 
 

III  Refaça a Conta

Divida o seu salário pelo do colega de cargo

1. O seu número: pegue o rendimento bruto do trabalho principal no mês passado, sem décimo terceiro e sem férias. É exatamente essa a quantia que a PNAD Contínua pergunta ao entrevistado.

2. A referência: use o rendimento do colega de mesmo cargo, mesma faixa de instrução e jornada equivalente. Sem essas três condições, a comparação mistura variáveis e não mede proporção nenhuma.

3. A conta: divida o seu número pelo dele e multiplique por cem. Depois multiplique doze pela diferença até cem, e o resultado é a sua distância expressa em meses dentro do ano.

A régua funciona com qualquer valor de salário, desde que os dois lados usem a mesma definição de rendimento. Comparar bruto com líquido inventa uma distância que existe só na aritmética.

Três avisos antes de refazer a divisão em casa. O primeiro é a base de comparação: um único colega é uma amostra de tamanho um, e o número que sai dessa divisão descreve dois contratos específicos, não um mercado.

O segundo é a jornada. Se as horas contratadas são diferentes, converta os dois rendimentos para valor por hora antes de dividir, porque a conta mensal confunde preço do trabalho com quantidade de trabalho.

O terceiro é o tempo de casa. Antiguidade move salário em quase toda estrutura de cargos, e comparar quem entrou há dez anos com quem entrou no ano passado mede promoção acumulada junto com qualquer outro fator.

Feita a conta, ela responde a uma pergunta prática. Quanto da sua remuneração corresponde ao cargo que você ocupa e quanto corresponde ao acordo individual fechado na entrada.

No exemplo da edição, a resposta é direta. Dos R$ 7.800 de referência na faixa de superior completo, R$ 2.652 é a parte que a proporção observada retira do rendimento médio feminino todo mês.

Para quem contrata, o mesmo número tem outro uso. Uma tabela salarial por cargo, com faixa publicada e critério de progressão escrito, é o instrumento que fecha a variação individual que a pesquisa capta doze meses depois.

Pegue o seu holerite agora e faça a divisão. O resultado diz, em um número só, qual proporção do rendimento da referência você recebe e quantos meses do seu ano cabem dentro dessa diferença.

"Quantos meses do seu ano cabem na sua diferença de salário?"

 
 
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Quiz da edição

Segundo o texto, quantos meses por ano a mulher com superior completo trabalha sem ver sua remuneração acumulada acompanhar a do homem?

A2,6 meses
B2,9 meses
C4,1 meses
D1,8 meses
 
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