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As 330 crianças a cada mil sem a vacina da pólio
O PNI passou anos acima da meta de 95%. Em 2021, a cobertura da pólio caiu para 67% e deixou 330 bebês em cada mil sem as 3 doses.
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Crianças sem a vacina da pólio por mil, 2015 a 2024
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330 crianças a cada mil nascidas, em 2021. Foi quantas ficaram sem o esquema completo da vacina contra a poliomielite no Brasil naquele ano, segundo o painel de cobertura vacinal do PNI (Programa Nacional de Imunizações), publicado pelo DataSUS.
A conta é o avesso da cobertura. O Ministério da Saúde registrou 67% das crianças com menos de 1 ano vacinadas com as 3 doses; os 33% restantes, multiplicados por dez, viram 330 em cada mil bebês.
A meta do PNI para a pólio é 95%. É a proporção que a OMS (Organização Mundial da Saúde) considera suficiente para impedir que o poliovírus volte a circular quando entra no país pela bagagem invisível de um viajante infectado.
O Brasil registrou o último caso de pólio selvagem em 1989, em Souza, na Paraíba. Em 1994, a Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) certificou as Américas como livres da doença.
Nos anos seguintes, a cobertura infantil ficou quase sempre acima da meta. O painel do DataSUS, com série desde 1995, mostra anos com mais de 100%, sinal de que o número de doses aplicadas superou o de nascidos vivos usados no cálculo.
Entre 1995 e 2015, a coluna de crianças sem a dose ficou perto de zero na maior parte dos anos, e a pólio saiu da lista de preocupações de famílias que nunca tinham visto um caso da doença.
A descida começou antes da pandemia. Em 2016, a cobertura já estava abaixo de 85%; a covid-19 fechou salas de vacina e afastou famílias dos postos em 2020 e 2021.
Depois veio a volta, lenta. Campanhas nacionais, vacinação nas escolas e busca ativa de crianças atrasadas empurraram o índice de novo para cima de 80% a partir de 2023.
O gráfico desta edição mostra quantas crianças em cada mil ficaram sem as 3 doses em cinco anos da série, de 2015 a 2024. As colunas deixam ver o buraco que se abriu e o quanto dele já foi fechado.
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I O Gráfico do Dia
Cinco colunas, um buraco aberto
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O número de crianças sem a vacina multiplicou por quase 20 entre 2015 e 2021, e a volta até 2024 fechou pouco mais de dois terços desse buraco.
A coluna de 2015 marca 17 por mil. O painel do PNI registrou 98,3% de cobertura para a pólio naquele ano, o último em que o país passou com folga da meta de 95%.
Em 2019 a coluna chega a 158. A cobertura tinha caído para 84,2%, e a queda não tinha uma causa só: o Ministério da Saúde apontava falta de vacina em alguns meses, horário restrito das salas e a troca do sistema de registro de doses.
A troca de sistema pesa na leitura. Entre 2015 e 2019, os municípios migraram para o SI-PNI (Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações), que registra cada dose pelo nome da criança, e parte das aplicações ficou sem lançamento nos primeiros anos.
O ministério nunca separou, no painel, quanto da queda de 2016 a 2019 foi dose não aplicada e quanto foi dose aplicada e não registrada. Por esse motivo, a série oficial é lida como teto do problema, e as campanhas trataram as duas causas juntas.
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Em 2021, a cobertura bateu 67%: um em cada três bebês brasileiros chegou ao primeiro aniversário sem as 3 doses contra a pólio.
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O ano de 2021 junta duas quedas. A pandemia reduziu consultas de rotina, e a vacina contra a covid-19 ocupou as mesmas equipes e as mesmas salas que aplicavam o calendário infantil.
A coluna de 2023 volta a 160, com 84% de cobertura. O governo federal lançou naquele ano o Movimento Nacional pela Vacinação, com campanhas de multivacinação e busca ativa das crianças com dose atrasada.
A multivacinação leva a caderneta inteira ao posto: a equipe confere todas as vacinas atrasadas da criança e aplica as que faltam numa visita só.
A última coluna, de 2024, fica em 110 por mil, com cerca de 89% de cobertura. Ainda são 6 pontos percentuais abaixo da meta.
Com cerca de 2,4 milhões de nascidos vivos no ano, pelo Sinasc (Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos), os 11% sem as 3 doses somam mais de 260 mil bebês em 2024.
Fonte e método: painel de coberturas vacinais do PNI no DataSUS, vacina poliomielite (3ª dose) em menores de 1 ano; denominador de nascidos vivos do Sinasc; crianças sem a dose calculadas como 100% menos a cobertura, vezes 10, arredondadas para o inteiro mais próximo.
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II A Conta do Mês
Cada ponto perdido, 24 mil bebês
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Com cerca de 2,4 milhões de nascidos vivos por ano no Sinasc, cada ponto percentual de cobertura perdido deixa perto de 24 mil bebês sem as 3 doses contra a pólio.
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A conta de 2021 mostra o tamanho do buraco. Com 67% de cobertura e perto de 2,7 milhões de nascidos vivos registrados pelo Sinasc, cerca de 890 mil crianças ficaram sem o esquema completo naquele ano.
Essas crianças não somem da conta no ano seguinte. Quem perdeu a dose aos 2, 4 ou 6 meses pode tomá-la depois, e a busca ativa das equipes de saúde da família serve justamente para achar esse grupo.
A cobertura também varia muito entre estados e municípios. No painel do PNI, há cidades acima de 100% e outras abaixo de 50% num único ano, e o vírus circula onde se acumulam crianças sem vacina.
O esquema atual tem 3 doses da VIP (vacina inativada da pólio, a injetável) aos 2, 4 e 6 meses. Até 2024, os reforços eram feitos com a VOP (vacina oral da pólio, a gotinha); o Ministério da Saúde anunciou naquele ano a troca da gotinha por um reforço injetável aos 15 meses.
| 2015 | 17 crianças sem a dose a cada mil | | 2019 | 158 por mil | | 2021 | 330 por mil, o fundo da série | | 2023 | 160 por mil | | 2024 | 110 por mil, ainda longe da meta |
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“Bem, o povo, eu diria. Não há patente. Você poderia patentear o sol?”
Jonas Salk, entrevista a Edward R. Murrow no programa See It Now, CBS, 1955
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Salk respondeu assim quando Murrow perguntou quem era o dono da patente da vacina injetável que ele tinha criado. A vacina nunca foi patenteada, e a dose do PNI chega de graça a qualquer posto do SUS.
O custo de ter a doença de volta seria outro. A pólio paralítica deixa sequela permanente em parte dos infectados, e a OMS trata um único caso confirmado como emergência, com vacinação em massa na região.
O risco já apareceu perto. Em 2022, os Estados Unidos confirmaram um caso de paralisia por pólio no condado de Rockland, em Nova York, num adulto não vacinado, e o vírus foi achado no esgoto da região.
Em 2023, a Opas classificou o Brasil entre os países de alto risco de reintrodução da pólio nas Américas, por causa da cobertura abaixo de 95% por vários anos seguidos.
A doença continua endêmica em 2 países, Paquistão e Afeganistão, segundo a Iniciativa Global de Erradicação da Pólio, parceria da OMS com o Unicef e outras entidades. Enquanto o vírus circular lá, a meta de 95% segue valendo aqui.
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