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A taxa de presos que triplicou em 2 décadas

O Senappen contava 137 presos por 100 mil habitantes em 2000. Na conta que soma cela e prisão domiciliar, a taxa chegou perto de 400.

Gráfico de colunas com a taxa de presos por 100 mil habitantes no Brasil: 137 em 2000, 196 em 2005, 260 em 2010, 306 em 2014, 352 em 2016, 359 em 2019 e perto de 400 em 2022, com a fonte escrita dentro da imagem.

Presos por 100 mil habitantes, 2000 a 2022

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137 presos por 100 mil habitantes, em dezembro de 2000. Foi a taxa de aprisionamento (quantas pessoas estão presas para cada 100 mil moradores) que o Ministério da Justiça registrou para o Brasil naquele ano.

Eram cerca de 233 mil pessoas atrás das grades, num país de 170 milhões. A contagem vinha do Depen (Departamento Penitenciário Nacional), o órgão federal que recolhia os números enviados por cada estado.

Em 2023, o Depen mudou de nome e virou Senappen (Secretaria Nacional de Políticas Penais). A série seguiu, agora dentro do Sisdepen (Sistema de Informações do Departamento Penitenciário Nacional), o painel onde os estados lançam a própria população carcerária a cada semestre.

Na contagem do Senappen de dezembro de 2022, o total passou de 830 mil pessoas custodiadas. O número soma quem está em cela física e quem cumpre pena em prisão domiciliar, com ou sem tornozeleira.

Dividido pela população do Censo 2022 do IBGE, de 203 milhões, o total dá uma taxa perto de 400 por 100 mil. Em pouco mais de vinte anos, a proporção de brasileiros presos quase triplicou.

A população do país cresceu cerca de 20% no período. A população presa cresceu mais de 250%.

Cada vaga tem uma conta mensal. Quem paga a comida, a luz, o agente penitenciário e o remédio do preso é, na maior parte dos casos, o governo estadual, e cada estado declara ao Senappen quanto gasta por pessoa custodiada.

As declarações variam muito de um estado para outro, porque cada governo inclui itens diferentes no cálculo. Uns contam só o custeio da unidade; outros somam folha de pagamento, escolta e saúde.

O gráfico desta edição mostra a taxa por 100 mil habitantes em sete pontos da série, de 2000 a 2022. As colunas deixam ver onde a curva acelerou e onde quase parou.

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I  O Gráfico do Dia

Sete colunas, uma escada inteira

A taxa subiu em todas as colunas da série, mas o ritmo mudou três vezes: rápido até 2016, quase parado até 2019 e de novo em alta quando a prisão domiciliar entrou na conta.

A coluna de 2005 marca 196 por 100 mil. O Depen contou cerca de 361 mil presos em dezembro daquele ano, 55% a mais que em 2000, num intervalo de cinco anos.

Em 2010 a taxa chega a 260. O total passou de 496 mil pessoas, segundo o Infopen (Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias), o relatório que o Depen publicava com os números estaduais.

A lei 11.343, de 2006, a Lei de Drogas, aparece em quase toda análise desse salto. Ela endureceu a pena para tráfico e deixou ao juiz a decisão de separar usuário de traficante, sem critério de quantidade. No Infopen de junho de 2016, o tráfico respondia por 28% das incidências penais registradas.

Em 2016, a taxa bateu 352 por 100 mil, e o Infopen de junho daquele ano contou 726.712 pessoas presas para 368 mil vagas.

A coluna de 2014 fica em 306. Foi o ano em que o Infopen passou a publicar a taxa no próprio relatório e a comparar o Brasil com outros países: o país tinha a quarta maior população prisional do mundo, atrás de Estados Unidos, China e Rússia.

Entre 2016 e 2019 a escada quase para. A taxa vai de 352 a 359, com cerca de 755 mil presos em dezembro de 2019. Parte da estabilidade vem das audiências de custódia (a apresentação do preso em flagrante a um juiz em até 24 horas), que o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) espalhou pelo país a partir de 2015.

A última coluna, de 2022, sobe para perto de 400. O salto tem explicação de método: o Sisdepen passou a somar presos em prisão domiciliar, que antes ficavam fora da conta. Só com quem está em cela, a taxa de 2022 fica perto de 320.

O gráfico usa a conta mais larga no último ponto e avisa na legenda. Comparar 2022 com 2019 sem o ajuste superestima a alta; ignorar a domiciliar esconde 190 mil pessoas sob custódia do Estado.

Fonte e método: relatórios do Depen e do Infopen de 2000 a 2019, Sisdepen do Senappen para dezembro de 2022; população das projeções e do Censo do IBGE; taxas arredondadas para o inteiro mais próximo.

 
 

II  A Conta do Mês

Uma vaga custa um salário e meio

Na média das declarações estaduais ao Senappen para 2023, manter uma pessoa presa custava perto de R$ 2.000 por mês, acima de um salário mínimo e meio daquele ano.

O número esconde uma distância grande entre estados. Na mesma rodada de declarações, houve governos informando menos de R$ 1.500 por preso e outros acima de R$ 4.000.

Parte da distância é custo real: agente penitenciário em Brasília ganha mais que no interior do Nordeste, e presídio federal de segurança máxima gasta mais com vigilância que cadeia pública.

Outra parte é método. Em 2021, o CNJ publicou o estudo Calculando Custos Prisionais, com o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), e apontou que cada estado usava fórmula própria, com ou sem folha de pessoal, escolta e obras.

Multiplicado pelos cerca de 640 mil presos em cela, o custo médio de R$ 2.000 dá perto de R$ 1,3 bilhão por mês, ou R$ 15 bilhões por ano, na conta desta edição. A prisão domiciliar custa bem menos: a tornozeleira sai na casa das centenas de reais mensais por pessoa.

2000137 presos por 100 mil habitantes
2010260 por 100 mil
2016352 por 100 mil, 726 mil presos
2019359 por 100 mil, a escada quase parada
2022perto de 400, somando a prisão domiciliar

“É melhor prevenir os crimes do que ter de puni-los.”

Cesare Beccaria, Dos Delitos e das Penas, 1764

Beccaria escreveu contra a tortura e as penas desproporcionais da Europa do século XVIII. A frase dele cabe na conta do Senappen: cada real gasto na vaga chega depois do crime, nunca antes.

O déficit de vagas continua. No Sisdepen de dezembro de 2022, o sistema tinha cerca de 480 mil vagas para 640 mil presos em cela, uma falta de 160 mil lugares.

Criar vaga também custa. O Senappen financia obras pelo Funpen (Fundo Penitenciário Nacional), e uma unidade nova leva anos entre projeto, licitação e inauguração; enquanto ela não abre, o preso excedente divide a cela já cheia.

Cerca de um quarto dos presos em cela, no Sisdepen de dezembro de 2022, ainda aguardava julgamento. São os presos provisórios, que custam a mesma vaga sem sentença definitiva.

O CNJ tem uma meta própria para o problema. O programa Fazendo Justiça, lançado pelo conselho em 2019 com o PNUD, financia mutirões de revisão de processos e a ampliação das audiências de custódia, para que o preso provisório não passe meses na cela esperando o primeiro contato com um juiz.

A conta do custo também muda com a pena alternativa. Prestação de serviço à comunidade e monitoramento eletrônico aparecem no Sisdepen como população sob custódia, mas sem a despesa de cela, comida e agente penitenciário 24 horas por dia.

 

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III  Refaça a Conta

Calcule a taxa do seu estado

1. A população presa: abra o painel do Sisdepen, no site do Senappen, escolha o último semestre publicado e anote o total do seu estado, separando cela física e prisão domiciliar.

2. A população do estado: pegue no site do IBGE a estimativa de moradores do estado para o ano escolhido. Use o Censo 2022 se o ano for 2022.

3. A conta: divida o número de presos pela população e multiplique por 100 mil. O resultado é a taxa de aprisionamento, comparável com a do país.

Um exemplo com o Brasil de 2022: 830 mil presos divididos por 203 milhões de habitantes dão 0,0041. Vezes 100 mil, a taxa fica perto de 410, arredondada no gráfico para 400.

Um exemplo com o custo: se o estado declara R$ 2.000 por preso e tem 30 mil pessoas em cela, o gasto passa de R$ 700 milhões por ano.

Três cuidados evitam conclusão errada.

O primeiro trata da domiciliar. Some ou tire a prisão domiciliar nos dois anos que for comparar, nunca em um só; misturar as duas contas cria um salto que não aconteceu.

O segundo trata do mês. O Sisdepen publica junho e dezembro, e a população presa oscila no ano. Compare sempre o mesmo semestre.

O terceiro trata do custo. Para ver o gasto do seu estado, procure no painel do Sisdepen o custo mensal declarado por preso e leia a nota metodológica: ela diz se a folha de pessoal entrou na conta.

Com o custo em mãos, multiplique pelo número de presos em cela e por 12. O resultado é o gasto anual declarado com o sistema prisional do estado.

A mesma conta vale para comparar com outros países. O World Prison Brief, do Institute for Crime and Justice Policy Research, da Universidade de Londres, publica a taxa de cada país e cita a fonte oficial de cada número.

400 presos por 100 mil habitantes. Foi a taxa do Brasil em dezembro de 2022, somando cela e prisão domiciliar (Senappen, Sisdepen, 2022).

"Quantos presos por 100 mil habitantes o seu estado tem hoje?"

 
 
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O que fez a taxa de presos saltar para perto de 400 por 100 mil em 2022, segundo o texto?

AUma onda de novos crimes registrados naquele ano
BO Censo do IBGE mudou o jeito de contar a população
CO Sisdepen passou a somar quem cumpre pena em prisão domiciliar
DO Congresso aprovou uma lei que aumentou as penas em 2022

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