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A Polícia Federal registrou 260 venezuelanos por dia

Pelos dados do OBMigra, os registros de venezuelanos saltaram de 3 mil em 2016 para perto de 95 mil em 2019, quase todos via Roraima.

Gráfico dos registros de imigrantes venezuelanos na Polícia Federal por dia: 8 em 2016, 110 em 2018, 260 em 2019 e 230 em 2022.

Venezuelanos registrados por dia na PF

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260 registros por dia. Foi o ritmo médio em que a Polícia Federal cadastrou imigrantes venezuelanos em 2019, pelos dados compilados pelo OBMigra (Observatório das Migrações Internacionais, ligado ao Ministério da Justiça) no relatório anual de 2020.

Somados os 365 dias, a conta chega perto de 95 mil venezuelanos com Registro Nacional Migratório (o documento de identidade do estrangeiro que mora no país) emitido naquele ano. Nenhuma outra nacionalidade chegou perto.

Três anos antes, o mesmo cadastro anotava perto de 3 mil venezuelanos no ano inteiro, ou 8 por dia. Em 2018, o ritmo já passava de 100 por dia.

A entrada se concentrou num ponto do mapa. A maior parte cruzou a fronteira por terra em Pacaraima, cidade de Roraima colada à venezuelana Santa Elena de Uairén, e seguiu pela BR-174 até Boa Vista, a 215 quilômetros dali.

Roraima tinha perto de 636 mil habitantes no Censo 2022 do IBGE, a menor população entre os estados. Dividido por essa base, o fluxo de 2019 dá perto de 150 registros por mil moradores num ano só.

Para comparar, a soma de todas as nacionalidades registradas em São Paulo, o estado mais procurado por imigrantes de outras origens, fica perto de 1 por mil no mesmo ano, pela estimativa desta edição com as bases do OBMigra.

A média diária também achata o calendário. O fluxo chegava em ondas, puxado por apagões, falta de comida e desvalorização do bolívar do outro lado da fronteira, e algumas semanas pesaram muito acima da média.

Registro, aqui, quer dizer documento emitido. A conta deixa de fora quem cruzou a fronteira e seguiu viagem para outro país, e quem ficou sem pedir residência.

O gráfico mostra os registros de venezuelanos por dia em quatro anos da série. A faixa I conta de onde vem o cadastro do OBMigra e qual regra fez a curva subir entre 2016 e 2019.

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I  O Gráfico do Dia

O cadastro da fronteira

Pelos dados do OBMigra, divididos por 365, os registros de venezuelanos foram perto de 8 por dia em 2016, 110 em 2018, 260 em 2019 e 230 em 2022.

O OBMigra nasceu em 2013, de um acordo entre o Ministério da Justiça e a Universidade de Brasília. A equipe recebe as bases administrativas da Polícia Federal, do Ministério do Trabalho e do Conare (Comitê Nacional para os Refugiados) e publica um relatório anual.

A base principal é o SisMigra (Sistema de Registro Nacional Migratório), mantido pela Polícia Federal. Cada imigrante que pede residência ganha uma linha, com nacionalidade, sexo, idade, data e estado do registro.

A série compilada começa em 2010. Nos primeiros anos, o topo da tabela alternava entre bolivianos, haitianos, chineses e portugueses, num total anual de algumas dezenas de milhares de registros.

A virada aparece a partir de 2017. A Venezuela, sob hiperinflação e escassez de alimentos e remédios, passou a perder população em ritmo de guerra, e o vizinho do norte do Brasil virou a porta mais curta para quem saía a pé ou de ônibus.

A Lei 13.445, de 2017, a Lei de Migração, substituiu o Estatuto do Estrangeiro de 1980 e criou a acolhida humanitária (a residência dada a quem foge de crise grave no país de origem) como regra permanente.

“A política migratória brasileira rege-se pelos seguintes princípios e diretrizes: [...] II, repúdio e prevenção à xenofobia, ao racismo e a quaisquer formas de discriminação.”

Congresso Nacional, Lei de Migração (Lei 13.445), artigo 3, 2017

Em março de 2018, a Portaria Interministerial 9 abriu a residência temporária de dois anos para nacionais de países vizinhos fora do acordo do Mercosul, desenhada para os venezuelanos. Pedir o registro ficou mais simples do que pedir refúgio, e a linha do SisMigra subiu.

No mesmo ano, o governo federal montou a Operação Acolhida, com o Exército, agências da ONU e prefeituras, para receber, documentar e abrigar quem chegava a Pacaraima e Boa Vista.

A operação também criou a interiorização (o transporte voluntário de imigrantes de Roraima para cidades de outros estados, com vaga de emprego ou parente à espera). O registro nasce na fronteira; a moradia, muitas vezes, fica longe dela.

Em 2020, a pandemia fechou a fronteira terrestre por meses, e os registros despencaram. A reabertura, em 2021, devolveu o fluxo, e 2022 voltou a perto de 230 por dia, com a Venezuela ainda no primeiro lugar da tabela.

Fonte e método: registros de imigrantes no SisMigra, da Polícia Federal, compilados pelo OBMigra nos relatórios anuais de 2010 a 2022; total anual de venezuelanos dividido por 365 e arredondado; estimativa desta edição.

 
 

II  A Conta do Mês

Cento e cinquenta por mil moradores

Em 2019, para cada mil moradores de Roraima, perto de 150 venezuelanos ganharam registro na Polícia Federal, pela estimativa desta edição.

A conta por mil habitantes troca a pergunta. O número absoluto diz quantos chegaram; a taxa diz quanto o lugar de chegada precisou absorver.

Com a população de Roraima fixada no Censo 2022 e os registros arredondados, a série fica assim:

20168 por dia, 5 por mil
2018110 por dia, 63 por mil
2019260 por dia, 149 por mil
2022230 por dia, 132 por mil

A base fixa simplifica a conta. Entre 2016 e 2022, a população de Roraima cresceu, em parte com os próprios venezuelanos, e a taxa real de cada ano sai um pouco diferente.

Boa Vista concentra a pressão. A capital tinha perto de 413 mil habitantes no Censo 2022 do IBGE, perto de dois terços do estado, e recebeu os abrigos da Operação Acolhida.

Em escala de rua, 260 registros por dia equivalem a seis ônibus urbanos cheios desembarcando todo dia, o ano inteiro, numa capital do tamanho de um bairro grande de São Paulo.

A escola sentiu primeiro. A matrícula de alunos estrangeiros na rede pública de Roraima saltou entre 2017 e 2019, pelo Censo Escolar do Inep, e o espanhol entrou na sala de aula sem professor bilíngue na maioria das turmas.

O refúgio corre numa trilha paralela. Em dezembro de 2019, o Conare reconheceu perto de 21 mil venezuelanos como refugiados numa única sessão, com base na grave violação de direitos humanos declarada para a Venezuela naquele ano.

Quem ganhou refúgio entra na conta do Conare, não na do SisMigra de residência. Somar as duas bases sem cuidado conta a mesma pessoa duas vezes, e o OBMigra publica cada uma em tabela separada.

O perfil também muda a leitura da taxa. Nos relatórios do OBMigra, a maioria dos venezuelanos registrados tinha entre 20 e 40 anos, idade de trabalho, e boa parte chegou em grupo familiar, com crianças em idade escolar.

Por esse filtro, 149 por mil segue como piso conservador da pressão sobre Roraima em 2019: descreve só quem pediu residência, não quem passou nem quem pediu refúgio.

 

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III  Refaça a Conta

O fluxo do seu estado em 4 passos

1. Os registros: no Portal de Imigração do Ministério da Justiça, abra as bases do OBMigra, escolha o SisMigra e filtre por ano, nacionalidade e estado do registro.

2. A população: no site do IBGE, pegue a população do mesmo estado no Censo 2022 ou na estimativa anual do ano escolhido.

3. O dia: divida o total anual de registros por 365. O resultado é o ritmo médio diário da Polícia Federal naquele estado.

4. A taxa: divida a população por mil e depois divida o total anual de registros por esse número. O resultado sai em registros por mil habitantes.

Com números redondos, o caminho fica assim. Um estado com 12 mil registros no ano dá perto de 33 por dia; com 6 milhões de habitantes, a base vira 6 mil, e a taxa dá 2 registros por mil.

Para a nacionalidade, repita a conta com o filtro de país. Bolivianos em São Paulo, haitianos em Santa Catarina e venezuelanos em Roraima mostram três tamanhos de fluxo na mesma unidade.

Quatro cuidados evitam conclusão errada.

O primeiro trata do lugar. O estado do registro é onde a Polícia Federal emitiu o documento, não onde a pessoa mora hoje; a interiorização levou parte dos venezuelanos de Roraima para o Sul e o Sudeste.

O segundo trata da trilha. Solicitantes e reconhecidos como refugiados aparecem nas bases do Conare, fora do SisMigra de residência, e entram na conta só se você somar as duas com o mesmo filtro de ano.

O terceiro trata da passagem. Parte dos venezuelanos cruzou o Brasil rumo à Argentina, ao Chile ou ao Uruguai sem pedir registro, e o SisMigra não enxerga quem não parou.

Um quarto cuidado vale para comparação entre anos: a Polícia Federal muda o desenho das tabelas de tempos em tempos, e o OBMigra reprocessa a série. Baixe sempre a versão mais recente antes de comparar 2016 com 2022.

Com os quatro cuidados anotados, o número do seu estado pode ser comparado com Roraima na mesma unidade: registros por mil habitantes num ano.

“Quantos imigrantes o seu estado registrou por dia no último ano, e de qual país veio o primeiro da tabela?”

149 registros por mil habitantes. Foi a taxa de venezuelanos registrados em Roraima em 2019 (OBMigra, relatório anual de 2020; IBGE, Censo 2022).

 
 
Quiz da edição

Pelo texto, por qual cidade a maior parte dos venezuelanos cruzou a fronteira antes de seguir pela BR-174 até Boa Vista?

AManaus
BSanta Elena de Uairén
CPacaraima
DRorainópolis

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