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ED 024

A informalidade do Norte é o dobro da do Sul

A PNAD Contínua marca 55,0% no Norte e 27,5% no Sul, e cada ponto acima da média vale R$ 603,77 por mês em FGTS, 13º e férias.

Gráfico da taxa de informalidade da população ocupada por região: Norte com 55,0%, Nordeste com 52,0%, média nacional em 38,4%, Centro-Oeste com 38,0%, Sudeste com 32,0% e Sul com 27,5%, com a fonte escrita dentro da imagem.

Informalidade por região, PNAD Contínua

 

Duas pessoas fazem o mesmo serviço de entrega, no mesmo aplicativo, com a mesma jornada de dez horas. Uma delas mora em Porto Alegre e está registrada por uma transportadora que atende o app. A outra mora em Belém e recebe por corrida, sem contrato, sem holerite e sem qualquer papel que prove a relação. O serviço prestado é idêntico. A proteção em volta dele, não.

A estatística que separa as duas tem nome técnico e definição escrita. Chama-se taxa de informalidade, e o IBGE a monta somando cinco grupos de ocupados: empregados do setor privado sem carteira assinada, trabalhadores domésticos sem carteira, empregadores sem CNPJ, trabalhadores por conta própria sem CNPJ e trabalhadores familiares auxiliares, que ajudam num negócio da família sem remuneração própria.

A medição vem da PNAD Contínua, a pesquisa domiciliar que o instituto roda todo trimestre em milhares de domicílios espalhados pelo país. Ela não pergunta apenas se a pessoa trabalha. Pergunta em que condição, com que vínculo e com qual documento por trás daquela ocupação.

O resultado costuma circular como um número nacional único, citado em manchete e em discurso, como se descrevesse o mercado de trabalho brasileiro inteiro. Média é resumo, e todo resumo apaga a dispersão que existe embaixo dele.

A dispersão aqui é grande o suficiente para mudar a conclusão. Existem regiões em que a maioria dos ocupados está fora do registro formal e existem regiões em que a informalidade não alcança nem três em cada dez trabalhadores, no mesmo país, sob a mesma legislação trabalhista.

Estar fora do registro não significa apenas ganhar menos ou ganhar de forma instável. Significa não acumular três parcelas obrigatórias que o contrato formal deposita automaticamente: o FGTS, o décimo terceiro salário e as férias acrescidas do terço constitucional.

Essas três parcelas têm percentual fixado em norma, e é justamente por serem fixas que elas permitem uma tradução. Um ponto percentual de informalidade deixa de ser abstração estatística e vira uma quantia mensal que não entra no bolso de ninguém.

O gráfico de hoje coloca as cinco regiões lado a lado contra a média nacional da PNAD Contínua, mostrando quanto cada uma se afasta do número que aparece sozinho no noticiário.

O resto da edição converte cada ponto de distância em reais por mês e entrega a divisão pronta para você refazer com o seu próprio salário.

Continue lendo ↓

 
 

I  O Gráfico do Dia

Do Sul ao Norte, a informalidade dobra

Nenhuma das cinco regiões brasileiras trabalha na média nacional.

A PNAD Contínua marca 55,0% de informalidade no Norte e 27,5% no Sul, contra uma média nacional de 38,4%. A distância entre as pontas é de 27,5 pontos percentuais, exatamente o tamanho da região mais formal do país.

A escada do gráfico tem seis barras. Norte em 55,0%, Nordeste em 52,0%, a média nacional em 38,4%, Centro-Oeste em 38,0%, Sudeste em 32,0% e Sul em 27,5%.

Duas regiões ficam acima da média e três ficam abaixo. Norte e Nordeste sozinhos puxam o número nacional para cima, e nenhuma das outras três consegue devolvê-lo ao ponto em que estaria se a distribuição fosse uniforme.

O Norte é o único caso em que a informalidade é maioria. Mais da metade dos ocupados da região trabalha sem carteira, sem CNPJ ou sem remuneração registrada, o que inverte a leitura habitual do mercado de trabalho como algo majoritariamente formal.

O Nordeste segue logo atrás, e a proximidade entre as duas regiões não é acaso estatístico. Ambas concentram ocupação agrícola, comércio de rua e serviços domésticos, três atividades em que o registro formal historicamente chega por último.

O Centro-Oeste é o caso mais curioso da série. Ele fica em 38,0%, quatro décimos abaixo da média nacional, ou seja, é a única região que quase coincide com o número que representa o país inteiro.

O Sudeste puxa a média para baixo por peso, não por percentual. Com 32,0%, ele não é a região mais formal, mas concentra a maior parcela da população ocupada do país, então cada décimo dele move o agregado nacional mais do que qualquer outro.

O Sul fecha a série em 27,5%. É o único pedaço do país em que a informalidade fica abaixo de três a cada dez trabalhadores, e a diferença para o Norte é de exatamente o dobro em proporção.

A composição setorial explica boa parte da ordem. Onde há indústria estabelecida, cooperativa organizada e empresa com folha de pagamento, o registro é padrão administrativo; onde a ocupação é dispersa e sazonal, o registro vira exceção contratual.

Vale registrar o que a série não mede. A taxa de informalidade não separa quem escolheu trabalhar por conta própria de quem não encontrou vaga formal, e trata um profissional autônomo de alta renda sem CNPJ e um ajudante familiar sem remuneração dentro do mesmo agregado.

Também não há aqui julgamento sobre produtividade ou esforço. A informalidade descreve a forma jurídica do vínculo, não a quantidade de horas trabalhadas nem o valor entregue por quem trabalha nelas.

Fonte e método: taxa de informalidade da população ocupada apurada pela PNAD Contínua trimestral do IBGE, conceito que reúne empregados sem carteira, domésticos sem carteira, empregadores e conta própria sem CNPJ e trabalhadores familiares auxiliares, referência de 2026.

 
 

II  A Conta do Mês

R$ 603,77 por mês fora do contracheque

Sobre um salário de R$ 2.200, o contrato formal deposita R$ 603,77 por mês em FGTS, décimo terceiro e férias com o terço. Cada ponto percentual de informalidade acima da média nacional equivale a essa quantia por trabalhador, todo mês.

A conta é possível porque as três parcelas têm alíquota fixa. O FGTS é 8% do salário, o décimo terceiro equivale a um doze avos e as férias valem um doze avos acrescido de um terço, o que dá 27,44% somados.

Sobre um salário de R$ 2.200, as parcelas devolvem os seguintes valores mensais:

FGTS, 8% sobre o salárioR$ 176,00
Décimo terceiro, um doze avosR$ 183,33
Férias com o terço constitucionalR$ 244,44
Total por trabalhador, por mêsR$ 603,77
Total por trabalhador, por anoR$ 7.245,24

A terceira linha costuma surpreender. As férias com o terço valem mais por mês que o próprio FGTS, e mesmo assim é o fundo de garantia que domina a conversa sobre perda de direito na informalidade.

Aplicada às regiões, a tradução fica direta. A cada 100 ocupados, o Norte tem 16,6 trabalhadores a mais fora do registro do que a média nacional, o que soma R$ 10.022,58 por mês que não são depositados naquele grupo.

O Nordeste segue a mesma lógica com 13,6 pontos de distância, o que dá R$ 8.211,27 por mês a cada 100 ocupados. Já o Sul, 10,9 pontos abaixo da média, tem R$ 6.581,09 mensais a mais circulando em benefício por grupo do mesmo tamanho.

"São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social: fundo de garantia do tempo de serviço."

Assembleia Nacional Constituinte, Constituição Federal, artigo 7º, ano de 1988

A redação constitucional ajuda a entender por que a conta funciona. O texto lista as parcelas como direito do trabalhador, sempre atrelado ao vínculo formal, e é a ausência desse vínculo, não a ausência de trabalho, que interrompe o depósito.

O efeito não aparece no mês. Ele aparece na década, quando um trabalhador com trinta anos de registro chega ao fim do período com um saldo de fundo de garantia e trinta décimos terceiros recebidos, enquanto o vizinho, com a mesma jornada, chega sem nenhum dos dois.

Existe uma contrapartida que a conta não pode ignorar. O trabalhador informal costuma receber o valor cheio combinado sem descontos de INSS e imposto na fonte, então parte da diferença mensal aparece no líquido imediato dele, e some no longo prazo.

A comparação também depende do salário usado. Sobre um piso de R$ 1.518, as três parcelas somam R$ 416,54 por mês; sobre R$ 5.000, elas passam de R$ 1.372, então a distância regional em reais cresce junto com a renda média local.

Nada disso aparece em qualquer contracheque, porque contracheque de trabalhador informal não existe. A perda mora justamente na ausência do documento que a registraria.

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III  Refaça a Conta

Multiplique o seu salário por 0,2744

1. O salário de referência: anote o valor bruto mensal combinado no seu trabalho, com carteira ou sem. Se a renda for variável, tire a média dos últimos seis meses para não usar um mês atípico como base.

2. As três alíquotas: multiplique esse valor por 0,08 para achar o FGTS mensal, divida por 12 para achar o décimo terceiro proporcional e multiplique por 1,3333 antes de dividir por 12 para achar as férias com o terço.

3. A soma e o atalho: some as três parcelas ou, para chegar direto, multiplique o salário bruto por 0,2744. O resultado é quanto de benefício obrigatório o vínculo formal deposita por mês em cima da sua remuneração.

O número que sai dessa multiplicação serve para duas decisões concretas. Ele mostra quanto uma proposta informal precisa pagar a mais para empatar com uma formal, e quanto um autônomo deveria guardar por conta própria para reproduzir o mesmo colchão.

Três avisos antes de comparar o seu resultado com o gráfico. O primeiro é o escopo: a conta cobre apenas FGTS, décimo terceiro e férias, e deixa de fora contribuição previdenciária, seguro-desemprego, aviso prévio e multa rescisória, que também dependem do registro.

O segundo é o sentido do fluxo. O FGTS fica depositado em conta vinculada e só é sacado em situações previstas em lei, então ele conta como patrimônio acumulado, não como dinheiro disponível no mês seguinte.

O terceiro é o líquido. O contrato formal desconta INSS e, acima da faixa de isenção, imposto de renda na fonte, então quem compara duas propostas precisa colocar bruto contra bruto ou líquido contra líquido, nunca misturar os dois lados.

Feita a multiplicação, ela responde a uma pergunta que o mapa regional levanta sem responder. Quanto vale, em dinheiro por mês, estar do lado formal da estatística em que a sua região aparece.

No exemplo da edição, a resposta é direta. Um salário de R$ 2.200 carrega R$ 603,77 mensais de benefício obrigatório, e uma região com 16,6 pontos de informalidade acima da média deixa de receber R$ 10.022,58 por mês a cada 100 ocupados.

Para quem negocia uma proposta agora, a multiplicação vale mais que o percentual regional. Uma vaga informal que paga 15% acima de uma formal ainda perde, porque a distância obrigatória entre elas começa em 27,44% antes de qualquer bônus.

Pegue o seu salário bruto e multiplique por 0,2744 agora. O resultado diz, em um número só, quanto do seu contrato de trabalho é depositado sem passar pela sua conta corrente.

"Quanto o seu salário deposita por mês fora do contracheque?"

 
 
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Sobre um salário de R$ 2.200, quanto o contrato formal deposita por mês em FGTS, décimo terceiro e férias com o terço constitucional?

AR$ 176,00
BR$ 603,77
CR$ 244,44
DR$ 7.245,24

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