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A inflação que pesou mais na renda muito baixa

O indicador do Ipea mostra a cesta dos mais pobres R$ 90 mais cara que a dos mais ricos no fim de 2021, e a distância que encolheu depois.

Gráfico de colunas com a distância, em reais por mês, entre a cesta da renda muito baixa e a da renda alta no Indicador de Inflação por Faixa de Renda do Ipea, numa cesta de R$ 2 mil de janeiro de 2020: cerca de R$ 70 em 2020, R$ 90 em 2021, R$ 50 em 2022, R$ 10 em 2023 e R$ 20 em 2024, com a fonte escrita dentro da imagem.

Cesta dos mais pobres menos a dos mais ricos, R$/mês

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R$ 90 por mês. Foi quanto a cesta de consumo de uma família de renda muito baixa ficou mais cara que a de uma família de renda alta no fim de 2021, com as duas partindo de R$ 2 mil em janeiro de 2020, pelo cálculo desta edição sobre o Indicador de Inflação por Faixa de Renda do Ipea.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea, o órgão de estudos econômicos do governo federal) publica o indicador todo mês desde 2016. Ele usa os mesmos preços do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, a inflação oficial medida pelo IBGE) e troca apenas os pesos.

A troca faz toda a diferença. O IPCA pondera os preços pelo gasto médio das famílias com renda entre 1 e 40 salários mínimos. O Ipea separa seis faixas de renda domiciliar e dá a cada uma o peso que ela gasta de verdade, pela Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF, o levantamento do IBGE sobre onde vai o dinheiro de cada casa).

Na ponta de baixo fica a renda muito baixa, domicílios com menos de cerca de R$ 2,1 mil por mês nos valores de referência atualizados pelo Ipea. Na ponta de cima fica a renda alta, acima de cerca de R$ 21 mil. As duas pontas compram listas muito diferentes.

Na família de renda muito baixa, comida em casa, gás de botijão, energia elétrica e aluguel ocupam a maior fatia do orçamento. Na de renda alta, pesam passagem aérea, plano de saúde, mensalidade escolar, gasolina e serviços como restaurante e salão.

Quando o arroz e o botijão sobem mais que a passagem de avião, a inflação da ponta de baixo corre na frente. Quando o movimento se inverte, a ponta de cima paga mais. O índice geral, a média ponderada, esconde a diferença.

A cesta de R$ 2 mil desta edição serve de base comum: o mesmo valor inicial nas duas faixas, corrigido pela inflação própria de cada uma, ano a ano, até dezembro de 2024.

O gráfico de hoje mostra como a distância entre as duas cestas abriu em 2020, chegou ao ponto mais largo em 2021 e encolheu nos três anos seguintes, com um motivo diferente em cada virada.

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I  O Gráfico do Dia

Cinco anos, duas cestas

Pelas taxas anuais do Ipea, a cesta da renda muito baixa subiu cerca de 34% entre janeiro de 2020 e dezembro de 2024, e a da renda alta subiu cerca de 33%.

O resultado final parece um empate. O caminho até ele, porém, foi desigual, e o gráfico mostra a distância em reais por mês entre as duas cestas no fim de cada ano, com as duas começando em R$ 2 mil.

O primeiro ponto, 2020, marca cerca de R$ 70. A inflação da renda muito baixa fechou o ano perto de 6,2%, pelo Ipea, contra perto de 2,7% da renda alta. Os alimentos no domicílio subiram cerca de 18% no ano, pelo IPCA do IBGE, e a comida pesa muito mais na lista de quem ganha menos.

O segundo ponto, 2021, marca cerca de R$ 90, a maior distância da série. A inflação da renda muito baixa ficou perto de 10,4%, e a da renda alta, perto de 9,7%. Energia elétrica e gás de botijão lideraram as altas, com a bandeira de escassez hídrica na conta de luz desde setembro daquele ano.

Somados os dois anos, a cesta da renda muito baixa passou de R$ 2.000 para cerca de R$ 2.345. A da renda alta foi para cerca de R$ 2.253.

O terceiro ponto, 2022, marca cerca de R$ 50. A distância encolheu pela primeira vez. A inflação da renda alta, perto de 7,3%, passou a da renda muito baixa, perto de 5,1%, pelo Ipea.

O motivo da virada foi duplo. A Lei Complementar 194, de junho de 2022, limitou o ICMS (o imposto estadual sobre circulação de mercadorias) sobre combustível e energia, o que baixou a conta de luz de todas as faixas. Ao mesmo tempo, passagem aérea e serviços, mais pesados na lista de cima, subiram forte.

O quarto ponto, 2023, marca cerca de R$ 10. Os alimentos no domicílio caíram de preço no ano, pelo IPCA, algo raro na série, e a inflação da renda muito baixa ficou perto de 3,9%, contra perto de 5,5% da renda alta.

O quinto ponto, 2024, marca cerca de R$ 20. A comida voltou a subir no segundo semestre, com seca e dólar alto, e a renda muito baixa fechou perto de 4,9%, um pouco acima da renda alta, perto de 4,5%.

Fonte e método: Indicador de Inflação por Faixa de Renda do Ipea, taxas anuais de 2020 a 2024 para as faixas de renda muito baixa e renda alta, aplicadas em cadeia a uma cesta de R$ 2 mil de janeiro de 2020; valores arredondados na dezena, calculados nesta edição.

 
 

II  A Conta do Mês

Noventa reais no pior momento

Numa cesta de R$ 2 mil, a distância máxima chegou a cerca de R$ 90 por mês no fim de 2021, pelo cálculo desta edição sobre as taxas do Ipea.

Noventa reais por mês pagam dois botijões de gás de 13 quilos nos preços médios de 2021 levantados pela Agência Nacional do Petróleo (ANP). Para quem vive com R$ 2 mil, a diferença come quase 5% do orçamento.

A conta ganha peso quando se soma o intervalo. Entre 2020 e 2022 a distância média ficou perto de R$ 70 por mês. Em 36 meses, dá cerca de R$ 2.500 a mais pagos pela família de renda muito baixa pela mesma cesta inicial.

A renda alta não saiu ilesa. Ela pagou a conta mais tarde, em 2022 e 2023, quando serviço, escola e passagem subiram mais que comida. A diferença está no fôlego de cada orçamento para absorver o golpe.

2020cerca de R$ 70 por mês a mais para a renda muito baixa
2021cerca de R$ 90 por mês
2022cerca de R$ 50 por mês
2023cerca de R$ 10 por mês
2024cerca de R$ 20 por mês
Alta acumulada de 2020 a 2024cerca de 34% na renda muito baixa e 33% na renda alta

“A inflação é sempre e em toda parte um fenômeno monetário.”

Milton Friedman, The Counter-Revolution in Monetary Theory, 1970

Friedman, prêmio Nobel de Economia de 1976, escreveu a frase para dizer que a causa da inflação mora na quantidade de moeda. O indicador do Ipea olha para outra face: a mesma inflação monetária chega a cada casa por um caminho diferente, conforme a lista de compras.

A família de renda muito baixa tem pouca margem para trocar de produto. Quando o feijão sobe, sobra pouca opção mais barata na prateleira, e a conta de luz não aceita substituto.

A família de renda alta consegue adiar a viagem, trocar o restaurante pela comida em casa ou esperar a passagem baixar. Essa folga faz a mesma alta de preço doer de jeito diferente.

O salário mínimo entra na conta como amortecedor parcial. Ele é corrigido pelo INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor, a inflação do IBGE para famílias de 1 a 5 salários mínimos), mais próximo da cesta de baixo, mas o reajuste chega só em janeiro, depois de um ano inteiro pagando a alta.

 

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III  Refaça a Conta

A inflação da sua própria cesta

1. O indicador: abra a página do Indicador de Inflação por Faixa de Renda no site do Ipea, dentro da Carta de Conjuntura, e baixe a planilha com as taxas mensais das seis faixas.

2. A faixa: some a renda de todos os moradores da sua casa e encontre a faixa correspondente na tabela de limites que o Ipea publica em cada divulgação, atualizada pela inflação.

3. A conta: multiplique o seu gasto mensal de janeiro de 2020 por 1 mais a taxa de cada ano, em sequência, até o ano mais recente. Compare com a sua renda de hoje e veja se ela acompanhou.

Com o resultado em mãos, três cuidados evitam conclusão errada.

O primeiro trata da cesta média. O Ipea usa o gasto típico de cada faixa pela POF de 2017 e 2018, e a sua casa pode fugir dele: quem paga aluguel alto ou não tem carro sente outra inflação.

O segundo trata dos limites. As fronteiras de cada faixa são corrigidas todo ano, então uma família pode trocar de faixa sem mudar de vida, só porque a renda subiu menos ou mais que a correção.

O terceiro trata do período. Comparar só um ano esconde a virada: quem olhasse apenas 2023 veria a renda alta com inflação maior e perderia os dois anos em que a ponta de baixo pagou mais.

O uso prático aparece na negociação de salário. Quem sabe a própria inflação acumulada desde 2020 sabe quanto o reajuste precisa cobrir para a renda real ficar parada.

O uso seguinte aparece no debate público. Quando alguém diz que a inflação do ano foi baixa, o indicador por faixa mostra para quem ela foi baixa e para quem não foi.

R$ 90 por mês numa cesta de R$ 2 mil, no fim de 2021. Foi a maior distância entre a inflação da renda muito baixa e a da renda alta, pelo Indicador de Inflação por Faixa de Renda do Ipea.

"A sua cesta subiu mais ou menos que o IPCA desde 2020?"

 
 
A Tabela do Juro: oito linhas, uma por dia: O limite que segura o saldo negativo, A fatura que volta maior, O empréstimo que caiu na conta, O parcelamento em curso, A parcela descontada antes do salário, O bem que ficou de garantia, A compra parcelada sem juro escrito, O dinheiro seu entregue antes da data. Começar pelo dia 1.

Começar pelo dia 1 →

 
Quiz da edição

Segundo a edição, o que fez a distância entre a cesta da renda muito baixa e a da renda alta encolher em 2022?

ACorte de juros do Banco Central
BA Lei Complementar 194, que limitou o ICMS sobre combustível e energia
CQueda do dólar frente ao real
DReajuste do salário mínimo em janeiro

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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