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A inflação que pesou mais na renda muito baixa
O indicador do Ipea mostra a cesta dos mais pobres R$ 90 mais cara que a dos mais ricos no fim de 2021, e a distância que encolheu depois.
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Cesta dos mais pobres menos a dos mais ricos, R$/mês
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R$ 90 por mês. Foi quanto a cesta de consumo de uma família de renda muito baixa ficou mais cara que a de uma família de renda alta no fim de 2021, com as duas partindo de R$ 2 mil em janeiro de 2020, pelo cálculo desta edição sobre o Indicador de Inflação por Faixa de Renda do Ipea.
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea, o órgão de estudos econômicos do governo federal) publica o indicador todo mês desde 2016. Ele usa os mesmos preços do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, a inflação oficial medida pelo IBGE) e troca apenas os pesos.
A troca faz toda a diferença. O IPCA pondera os preços pelo gasto médio das famílias com renda entre 1 e 40 salários mínimos. O Ipea separa seis faixas de renda domiciliar e dá a cada uma o peso que ela gasta de verdade, pela Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF, o levantamento do IBGE sobre onde vai o dinheiro de cada casa).
Na ponta de baixo fica a renda muito baixa, domicílios com menos de cerca de R$ 2,1 mil por mês nos valores de referência atualizados pelo Ipea. Na ponta de cima fica a renda alta, acima de cerca de R$ 21 mil. As duas pontas compram listas muito diferentes.
Na família de renda muito baixa, comida em casa, gás de botijão, energia elétrica e aluguel ocupam a maior fatia do orçamento. Na de renda alta, pesam passagem aérea, plano de saúde, mensalidade escolar, gasolina e serviços como restaurante e salão.
Quando o arroz e o botijão sobem mais que a passagem de avião, a inflação da ponta de baixo corre na frente. Quando o movimento se inverte, a ponta de cima paga mais. O índice geral, a média ponderada, esconde a diferença.
A cesta de R$ 2 mil desta edição serve de base comum: o mesmo valor inicial nas duas faixas, corrigido pela inflação própria de cada uma, ano a ano, até dezembro de 2024.
O gráfico de hoje mostra como a distância entre as duas cestas abriu em 2020, chegou ao ponto mais largo em 2021 e encolheu nos três anos seguintes, com um motivo diferente em cada virada.
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I O Gráfico do Dia
Cinco anos, duas cestas
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Pelas taxas anuais do Ipea, a cesta da renda muito baixa subiu cerca de 34% entre janeiro de 2020 e dezembro de 2024, e a da renda alta subiu cerca de 33%.
O resultado final parece um empate. O caminho até ele, porém, foi desigual, e o gráfico mostra a distância em reais por mês entre as duas cestas no fim de cada ano, com as duas começando em R$ 2 mil.
O primeiro ponto, 2020, marca cerca de R$ 70. A inflação da renda muito baixa fechou o ano perto de 6,2%, pelo Ipea, contra perto de 2,7% da renda alta. Os alimentos no domicílio subiram cerca de 18% no ano, pelo IPCA do IBGE, e a comida pesa muito mais na lista de quem ganha menos.
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O segundo ponto, 2021, marca cerca de R$ 90, a maior distância da série. A inflação da renda muito baixa ficou perto de 10,4%, e a da renda alta, perto de 9,7%. Energia elétrica e gás de botijão lideraram as altas, com a bandeira de escassez hídrica na conta de luz desde setembro daquele ano.
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Somados os dois anos, a cesta da renda muito baixa passou de R$ 2.000 para cerca de R$ 2.345. A da renda alta foi para cerca de R$ 2.253.
O terceiro ponto, 2022, marca cerca de R$ 50. A distância encolheu pela primeira vez. A inflação da renda alta, perto de 7,3%, passou a da renda muito baixa, perto de 5,1%, pelo Ipea.
O motivo da virada foi duplo. A Lei Complementar 194, de junho de 2022, limitou o ICMS (o imposto estadual sobre circulação de mercadorias) sobre combustível e energia, o que baixou a conta de luz de todas as faixas. Ao mesmo tempo, passagem aérea e serviços, mais pesados na lista de cima, subiram forte.
O quarto ponto, 2023, marca cerca de R$ 10. Os alimentos no domicílio caíram de preço no ano, pelo IPCA, algo raro na série, e a inflação da renda muito baixa ficou perto de 3,9%, contra perto de 5,5% da renda alta.
O quinto ponto, 2024, marca cerca de R$ 20. A comida voltou a subir no segundo semestre, com seca e dólar alto, e a renda muito baixa fechou perto de 4,9%, um pouco acima da renda alta, perto de 4,5%.
Fonte e método: Indicador de Inflação por Faixa de Renda do Ipea, taxas anuais de 2020 a 2024 para as faixas de renda muito baixa e renda alta, aplicadas em cadeia a uma cesta de R$ 2 mil de janeiro de 2020; valores arredondados na dezena, calculados nesta edição.
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II A Conta do Mês
Noventa reais no pior momento
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Numa cesta de R$ 2 mil, a distância máxima chegou a cerca de R$ 90 por mês no fim de 2021, pelo cálculo desta edição sobre as taxas do Ipea.
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Noventa reais por mês pagam dois botijões de gás de 13 quilos nos preços médios de 2021 levantados pela Agência Nacional do Petróleo (ANP). Para quem vive com R$ 2 mil, a diferença come quase 5% do orçamento.
A conta ganha peso quando se soma o intervalo. Entre 2020 e 2022 a distância média ficou perto de R$ 70 por mês. Em 36 meses, dá cerca de R$ 2.500 a mais pagos pela família de renda muito baixa pela mesma cesta inicial.
A renda alta não saiu ilesa. Ela pagou a conta mais tarde, em 2022 e 2023, quando serviço, escola e passagem subiram mais que comida. A diferença está no fôlego de cada orçamento para absorver o golpe.
| 2020 | cerca de R$ 70 por mês a mais para a renda muito baixa | | 2021 | cerca de R$ 90 por mês | | 2022 | cerca de R$ 50 por mês | | 2023 | cerca de R$ 10 por mês | | 2024 | cerca de R$ 20 por mês | | Alta acumulada de 2020 a 2024 | cerca de 34% na renda muito baixa e 33% na renda alta |
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“A inflação é sempre e em toda parte um fenômeno monetário.”
Milton Friedman, The Counter-Revolution in Monetary Theory, 1970
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Friedman, prêmio Nobel de Economia de 1976, escreveu a frase para dizer que a causa da inflação mora na quantidade de moeda. O indicador do Ipea olha para outra face: a mesma inflação monetária chega a cada casa por um caminho diferente, conforme a lista de compras.
A família de renda muito baixa tem pouca margem para trocar de produto. Quando o feijão sobe, sobra pouca opção mais barata na prateleira, e a conta de luz não aceita substituto.
A família de renda alta consegue adiar a viagem, trocar o restaurante pela comida em casa ou esperar a passagem baixar. Essa folga faz a mesma alta de preço doer de jeito diferente.
O salário mínimo entra na conta como amortecedor parcial. Ele é corrigido pelo INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor, a inflação do IBGE para famílias de 1 a 5 salários mínimos), mais próximo da cesta de baixo, mas o reajuste chega só em janeiro, depois de um ano inteiro pagando a alta.
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