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A Amazônia que perdia 76 km² por dia
O PRODES do INPE mediu 27.772 km² derrubados em 2004 e 4.571 km² em 2012: a mesma floresta, seis vezes menos corte por dia.
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Floresta derrubada por dia, km², PRODES/INPE
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76 km² por dia. Foi quanto a floresta amazônica perdeu, em média, entre agosto de 2003 e julho de 2004, pela taxa anual do PRODES, o sistema de monitoramento por satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
A taxa daquele ano fechou em 27.772 km². Dividida por 365, dá pouco mais de 76 km² de mata derrubada a cada dia, o equivalente a cerca de 10,6 mil campos de futebol oficiais, ou sete campos e meio por minuto, sem pausa para a noite.
O PRODES (Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite) mede o corte raso, a remoção completa da floresta, em áreas acima de 6,25 hectares. O ano dele corre de agosto a julho, porque a estação seca facilita a leitura das imagens sem nuvem.
A série oficial começa em 1988 e cobre os nove estados da Amazônia Legal: Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. Cada taxa sai primeiro como estimativa, em novembro ou dezembro, e é consolidada no ano seguinte.
O número de 2004 impressiona pelo contexto. Ele veio depois de uma década de expansão da soja e do gado em Mato Grosso, Pará e Rondônia, com estradas abertas mata adentro e grilagem, a ocupação de terra pública com documento falso, correndo solta.
O recorde da série fica em 1995, com 29.059 km², ano de câmbio favorável à exportação e de crédito rural farto. A marca de 2004 ficou em segundo lugar, mas foi a mais alta desde então e virou o ponto de partida de toda a política que veio depois.
Oito anos mais tarde, em 2012, a taxa caiu para 4.571 km², o menor valor já registrado pelo PRODES. Em km² por dia, a derrubada passou de 76 para 12,5.
A floresta, o satélite e o método continuaram os mesmos. Mudou a velocidade do corte, e o gráfico de hoje mostra por onde ela desceu e por onde voltou a subir.
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I O Gráfico do Dia
Da curva de 1995 ao piso de 2012
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Convertida em km² por dia, a série do PRODES traça três fases: o planalto alto até 2004, a descida até 2012 e a subida lenta que só voltou a ceder em 2023.
O primeiro ponto, 1988, marca 21.050 km² no ano, cerca de 58 km² por dia. A taxa daquele ano inaugural mistura desmatamento de vários períodos, e o próprio INPE trata o valor como média de 1977 a 1988.
O pico da série vem em 1995: 29.059 km², perto de 80 km² por dia. Nos três anos seguintes, a taxa recuou para a faixa de 13 mil a 18 mil km², sem nunca descer abaixo de 11 mil km².
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Depois de 2000 a curva voltou a subir e bateu 27.772 km² em 2004, cerca de 76 km² por dia. Foi o ponto mais alto do século XXI.
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A descida começou em 2005, com 19.014 km², e seguiu quase sem interrupção: 14.286 km² em 2006, 11.651 km² em 2007 e 7.464 km² em 2009.
O piso chegou em 2012, com 4.571 km², ou 12,5 km² por dia. Em oito anos, a velocidade da derrubada caiu cerca de 84%.
A subida posterior foi mais lenta do que a queda. A taxa passou dos 7 mil km² em 2016, dos 10 mil km² em 2019 e chegou a 13.038 km² em 2021, cerca de 36 km² por dia, a maior desde 2006.
A virada seguinte veio em 2023, com 9.001 km², e continuou em 2024, com cerca de 6,3 mil km² na taxa divulgada pelo INPE, perto de 17 km² por dia.
A alta de 2019 a 2021 coincidiu com menos autos de infração do Ibama na Amazônia, pelos dados abertos do próprio instituto, e com o avanço da grilagem sobre florestas públicas ainda sem destinação no sul do Amazonas e no oeste do Pará.
A queda de 2023 e 2024 veio com a retomada do PPCDAm em nova fase, com embargos remotos de áreas desmatadas e o corte de crédito para propriedades embargadas.
Fonte e método: PRODES/INPE, taxas anuais consolidadas de 1988 a 2023 e estimativa de 2024, cada uma dividida por 365 nesta edição; ano PRODES de agosto a julho.
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II A Conta do Mês
Seis vezes menos corte por dia
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Entre 2004 e 2012, a derrubada diária caiu de 76 km² para 12,5 km²: uma floresta perdida seis vezes mais devagar, pelas taxas do PRODES.
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Em 2004, a mata derrubada em um único dia cobria cerca de um terço do município do Recife, que tem 218 km² pelo IBGE. Em 2012, a perda diária ficou perto de 12,5 km², ou uns 1.750 campos de futebol.
A soma do ano ajuda a medir a escala. Os 27.772 km² de 2004 equivalem a quase toda a área de Alagoas, que tem cerca de 27,8 mil km² pelo IBGE. Os 4.571 km² de 2012 cabem três vezes no município de São Paulo, com seus 1.521 km².
A queda teve endereço. Em março de 2004, o governo federal lançou o PPCDAm (Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal), que juntou 13 ministérios numa estratégia só.
O plano ganhou olhos no mesmo ano com o DETER (Detecção do Desmatamento em Tempo Real), outro sistema do INPE, que passou a mandar alertas frequentes ao Ibama. A fiscalização deixou de esperar a taxa anual para agir.
Vieram depois a Moratória da Soja, de 2006, acordo em que as empresas que compram e exportam grãos se comprometeram a não comprar soja de área desmatada, e a Resolução 3.545 do Conselho Monetário Nacional, de 2008, que exigiu regularidade ambiental para o crédito rural na Amazônia.
| 1995 | cerca de 80 km² por dia, recorde da série | | 2004 | cerca de 76 km² por dia | | 2012 | cerca de 12,5 km² por dia, piso da série | | 2021 | cerca de 36 km² por dia | | 2024 | cerca de 17 km² por dia, pela estimativa do INPE |
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“Realmente, a Amazônia é a última página, ainda a escrever-se, do Gênesis.”
Euclides da Cunha, À Margem da História, 1909
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Euclides da Cunha escreveu a frase depois de chefiar, em 1905, a comissão brasileira que mapeou o Alto Purus, no Acre. Ele via uma terra ainda em formação, e o PRODES mostra quem passou a escrever as páginas seguintes.
Nem toda a queda veio de política. Os preços da soja e do boi também recuaram em parte do período, e a valorização do real reduziu o ganho de quem exportava. Os estudos do Climate Policy Initiative, de 2012, atribuíram parte relevante da queda às ações de fiscalização e às regras de crédito.
O Código Florestal de 2012 entrou depois do piso e trouxe o Cadastro Ambiental Rural (CAR, o registro eletrônico obrigatório de cada imóvel rural com seus limites e sua mata). Com o CAR, o satélite passou a ligar cada clareira a um dono declarado.
O piso de 2012, porém, não se sustentou. A taxa voltou a subir já em 2013, com 5.891 km², e a redução seguinte só apareceu uma década depois.
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