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ED 044
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38 meses do mais pobre por 1 mês do mais rico

O IBGE mediu R$ 21.246 por mês no 1% mais rico e R$ 553 nos 40% mais pobres da PNAD Contínua de 2023.

Gráfico de barras em reais por mês por pessoa no Brasil de 2023: R$ 21.246 de rendimento médio no 1% com maiores rendimentos, R$ 1.320 de salário mínimo nacional e R$ 553 de rendimento médio nos 40% com menores rendimentos, com a fonte escrita dentro da imagem.

Rendimento mensal por pessoa, PNAD Contínua, 2023

 

38,4 meses. Foi o tempo que uma pessoa dos 40% mais pobres do Brasil precisou somar de rendimento, em 2023, para juntar o que uma pessoa do 1% mais rico recebeu num mês só, pela conta desta edição sobre os dados de rendimento da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, chamada de PNAD Contínua, é a pesquisa domiciliar que o IBGE aplica a cada trimestre desde 2012, visitando a mesma casa cinco vezes ao longo de um ano e meio para acompanhar trabalho, renda e condição de moradia.

O indicador que interessa aqui tem nome técnico: rendimento domiciliar per capita, ou seja, tudo que entra na casa num mês dividido pelo número de moradores, inclusive as crianças e quem não trabalha. Salário, aposentadoria, pensão, aluguel recebido e benefício social entram na conta.

Com o valor por pessoa na mão, o IBGE ordena a população brasileira inteira do menor rendimento para o maior e corta a fila em faixas. Os 40% da base são quarenta em cada cem brasileiros, perto de 86 milhões de pessoas. O 1% do topo são pouco mais de 2 milhões.

A pesquisa publica o rendimento médio de cada uma dessas faixas, e a distância entre elas costuma ser lida em vezes: tantas vezes maior, tantas vezes menor. O número em vezes é exato e some da cabeça do leitor em cinco minutos.

Esta edição troca a unidade. Divide o rendimento médio do topo pelo rendimento médio da base e lê o resultado em meses de calendário, porque mês é a unidade em que o brasileiro recebe, paga aluguel e conta o quanto falta para a próxima quinta-feira.

O gráfico de hoje traz três barras na mesma unidade de reais por mês por pessoa: o topo, a base e o salário mínimo do ano no meio, para mostrar de que lado da régua nacional cada faixa cai.

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I  O Gráfico do Dia

As três barras do rendimento

A PNAD Contínua do IBGE mediu, em 2023, rendimento domiciliar per capita médio de R$ 21.246 por mês no 1% com maiores rendimentos e de R$ 553 por mês nos 40% com menores rendimentos, com o salário mínimo nacional daquele ano em R$ 1.320.

O gráfico tem três barras e uma unidade só, reais por mês por pessoa. Nenhuma barra traz renda de família inteira, porque família grande e família pequena com o mesmo salário vivem realidades distintas, e a divisão por morador coloca as duas na mesma medida.

A primeira barra é o 1% do topo, R$ 21.246. O valor descreve quanto cabe a cada morador dessas casas, não o salário de um executivo: uma família de quatro pessoas nessa faixa movimenta perto de R$ 85 mil por mês.

A segunda barra é o salário mínimo de 2023, R$ 1.320. Ela não descreve faixa nenhuma da pesquisa, funciona como marco de leitura, o piso legal que o país fixou para uma jornada cheia de trabalho formal.

A terceira barra é a base da fila, R$ 553 por morador. O valor fica em 42% do salário mínimo daquele ano, e vale lembrar que ele já está dividido: uma casa de quatro pessoas nessa faixa reúne perto de R$ 2.200 por mês ao todo.

Em proporção, o topo recebe 38,4 vezes o que a base recebe. O mesmo topo recebe 16,1 vezes o salário mínimo de 2023, enquanto a base recebe menos da metade dele.

Um alerta de leitura sobre o que o rendimento declarado mede: a PNAD Contínua pergunta ao morador quanto ele recebeu, e a resposta capta bem salário e benefício, capta mal lucro, dividendo e ganho de capital. O IBGE afirma a limitação nas notas técnicas da própria pesquisa, e estudos que cruzam declaração do Imposto de Renda com a pesquisa domiciliar encontram topo mais alto que o medido aqui.

Vale dizer com todas as letras o que as três barras não mostram. Elas não separam Norte de Sudeste, não separam capital de interior, não dizem quantas horas cada faixa trabalhou pelo valor recebido e não descontam imposto nem contribuição previdenciária.

As barras também calam sobre o patrimônio. Duas pessoas com o mesmo rendimento mensal podem ter uma casa quitada ou um aluguel a pagar, e a pesquisa de rendimento não enxerga essa distância.

Fonte e método: rendimento domiciliar per capita médio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, ano de 2023, com o salário mínimo nacional vigente em 2023 como barra de referência e a razão calculada nesta edição.

 
 

II  A Conta do Mês

Trinta e oito meses de trabalho

Um mês do 1% mais rico equivale a 38,4 meses da base, ou seja, 3 anos e 2 meses de rendimento acumulado de uma pessoa dos 40% mais pobres, sem descontar um centavo de comida, aluguel ou transporte no caminho.

A leitura em anos muda o tamanho do fato. Trinta e oito meses cobrem um curso técnico inteiro, a maior parte de uma graduação, três Copas do Mundo de distância ou o prazo padrão de um financiamento de carro popular.

O acúmulo é hipotético e serve de medida, não de plano: ninguém dos 40% mais pobres guarda R$ 553 por mês, porque o valor inteiro vai embora em comida, gás, transporte e conta de luz antes do dia 20.

A PNAD Contínua nasceu em 2012 justamente para acompanhar movimento, e não fotografia. O desenho da amostra repete visitas ao mesmo domicílio, e cada trimestre da série usa a mesma definição de rendimento, o que permite comparar um ano com o outro sem trocar a régua no meio do caminho.

Os números da conta desta edição cabem numa lista curta:

Rendimento médio por pessoa no 1% do topo, 2023R$ 21.246
Rendimento médio por pessoa nos 40% da base, 2023R$ 553
Salário mínimo nacional de 2023R$ 1.320
Razão entre topo e base38,4 vezes
Meses da base para um mês do topo38,4
Pessoas nos 40% da baseperto de 86 milhões

"O subdesenvolvimento não constitui uma etapa necessária do processo de formação das economias capitalistas modernas. É, em si, um processo particular, resultante da penetração de empresas capitalistas modernas em estruturas arcaicas."

Celso Furtado, Desenvolvimento e Subdesenvolvimento, ano de 1961

A concentração medida pela pesquisa não fica parada num gráfico. Ela aparece no preço do imóvel urbano, na fila do transplante, na escola que cada criança alcança e no juro que cada faixa paga pelo mesmo cartão de crédito.

O efeito sobre o preço merece atenção do leitor assalariado. Quando o topo concentra rendimento, o dinheiro dele disputa bem escasso, imóvel bem localizado, escola com fila e serviço de saúde privado, e o preço desses três sobe acima da inflação geral que o assalariado recebe de reajuste.

Onde cai o salário de quem lê esta edição depende de uma divisão simples, e quase sempre esquecida. Quem ganha R$ 4.000 por mês e sustenta quatro pessoas tem rendimento per capita de R$ 1.000, abaixo do salário mínimo de 2023 e a menos de duas barras da base da fila.

Quem ganha os mesmos R$ 4.000 e mora sozinho tem rendimento per capita de R$ 4.000, três vezes o salário mínimo daquele ano e ainda assim a um quinto do rendimento médio do topo. A posição na fila brasileira muda com o número de pratos na mesa, não só com o valor do contracheque.

A leitura prática para quem recebe salário cabe numa frase: o degrau que separa um contracheque do contracheque seguinte é pequeno perto do degrau que separa a fila inteira do 1% do topo.

 

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III  Refaça a Conta

Ache o seu degrau

1. O que entra na casa: some tudo que os moradores receberam no último mês, salário líquido, aposentadoria, pensão, benefício social, aluguel recebido e trabalho por conta própria, sem tirar nada.

2. A divisão por morador: divida o total pelo número de pessoas que moram e comem naquela casa, contando crianças e quem não trabalha, porque a pesquisa mede rendimento por pessoa e não por contrato de trabalho.

3. A conta em meses: divida R$ 21.246 pelo seu rendimento per capita. O resultado diz quantos meses do seu calendário cabem num mês do topo da fila brasileira de 2023.

Com o seu número na mão, três verificações mostram o que uma conta de uma casa esconde.

A primeira verificação trata do custo local. Um rendimento per capita de R$ 2.000 em cidade média do interior e o mesmo valor em capital do Sudeste compram cestas diferentes, e o aluguel responde pela maior parte da distância.

A segunda trata da estabilidade. Anote o mesmo cálculo por três meses seguidos: quem trabalha por conta própria, por aplicativo ou por diária costuma ver variação de 20% a 40% entre um mês e outro, e a média anual mente sobre o mês ruim.

A terceira trata do rendimento que não vem de trabalho. Some aluguel recebido, juro de aplicação e dividendo, porque o topo da fila brasileira vive dessas fontes e a maior parte dos assalariados vive só da primeira.

O uso prático aparece na leitura de notícia sobre renda. Manchete com número solto de rendimento médio nacional diz pouco; o mesmo número comparado ao seu per capita e ao valor do topo diz de que lado da distribuição a sua casa está.

O uso seguinte aparece no orçamento familiar. Quem divide salário por morador enxerga o efeito de um filho a mais, de um pai idoso que se muda ou de um segundo salário que entra, e planeja com o número por pessoa em vez do total bruto.

O uso final aparece no debate público sobre imposto e benefício. Faixa de isenção do Imposto de Renda, corte do Bolsa Família e piso de aposentadoria trabalham com renda por pessoa, e quem chega com o próprio per capita calculado acompanha a discussão sem depender de percentual solto.

R$ 20.693 por mês. Foi a distância, em reais por pessoa, entre o rendimento médio do 1% com maiores rendimentos e o dos 40% com menores rendimentos na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, ano de 2023.

"Quantos meses do seu rendimento cabem num mês do topo da fila?"

 
 

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Segundo a edição, o rendimento médio por pessoa dos 40% mais pobres em 2023 correspondia a que parcela do salário mínimo daquele ano?

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