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16,4 milhões de brasileiros em favelas no Censo de 2022

No Censo de 2022, 8,1% do país morava em favelas e comunidades urbanas, contra 6% em 2010: 1.133 moradores a mais por dia.

Gráfico dos moradores de favelas e comunidades urbanas pelo IBGE: 2010 11,4 milhões, 2022 16,4 milhões.

Moradores de favelas, milhões (IBGE)

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16,4 milhões de pessoas em 2022. Foi quanto o Censo Demográfico do IBGE contou morando em favelas e comunidades urbanas, 8,1% da população brasileira.

O número fica maior quando ganha uma comparação. Se as favelas do país formassem um estado só, ele teria mais moradores que a Bahia, o quarto estado mais populoso, que o mesmo Censo de 2022 contou em 14,1 milhões.

O recenseador não pergunta a ninguém se mora numa favela. A classificação vem antes da visita: técnicos do IBGE desenham no mapa os setores censitários (as pequenas áreas que cada recenseador percorre a pé) e marcam quais deles reúnem os traços de uma favela.

Os traços se dividem em três grupos. Pelo critério do IBGE, entram a falta de título de propriedade na maior parte dos lotes, o serviço público precário ou ausente, como água, esgoto, coleta de lixo e luz, e a ocupação fora das normas urbanísticas da prefeitura, com becos, ruas estreitas e casas coladas.

Até o Censo de 2010, o instituto chamava essas áreas de aglomerados subnormais, termo técnico para “conjunto de moradias abaixo do padrão”. Em 2024, o IBGE trocou o rótulo por favelas e comunidades urbanas, depois de ouvir movimentos de moradores que rejeitavam a palavra subnormal.

A troca de nome veio junto com um mapa refeito. Entre um Censo e outro, o instituto revisou os limites com imagem de satélite e trabalho de campo, e áreas antigas que tinham ficado fora em 2010 entraram na contagem de 2022.

A maior favela contada em 2022 foi a Rocinha, na zona sul carioca, com 72.021 moradores, pelo IBGE. A segunda foi o Sol Nascente, em Ceilândia, no Distrito Federal, com 70.908. A diferença entre as duas cabe num estádio pequeno.

Cada uma dessas duas áreas tem mais gente que a maior parte dos 5.570 municípios do país. Mesmo assim, as duas juntas somam menos de 1% de todos os moradores de favela contados pelo Censo.

A população das favelas, portanto, mora espalhada em milhares de áreas médias e pequenas, e não em poucas comunidades gigantes. O tamanho médio de cada área aparece mais adiante, na tabela dos dois Censos.

O Gráfico do Dia, logo abaixo, põe os dois Censos lado a lado e converte a diferença entre eles em moradores a mais por dia.

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I  O Gráfico do Dia

Mais 1.133 moradores por dia

Pelo IBGE, as favelas e comunidades urbanas tinham 11.425.644 moradores no Censo de 2010 e 16.390.815 no Censo de 2022: 4.965.171 a mais.

As duas contagens usam a mesma data de referência, 31 de julho, com 12 anos de distância. São 4.383 dias, já contados os três anos bissextos do período, 2012, 2016 e 2020.

Dividido por 4.383, o acréscimo dá 1.133 moradores a mais por dia. É perto da lotação de 20 ônibus urbanos cheios, todos os dias, durante 12 anos.

A população do país cresceu bem menos. Pelo IBGE, o Brasil foi de 190.755.799 habitantes em 2010 para 203.080.756 em 2022, um acréscimo de 12.324.957, perto de 2.812 por dia.

A comparação entre as duas contas diz muito. Dos 2.812 habitantes a mais por dia no país, 1.133 aparecem em áreas que o Censo classificou como favela: 40 de cada 100.

Em fatia da população, a alta foi de 6% para 8,1%, ou 2,1 pontos em 12 anos. A população das favelas cresceu 43,5% entre os dois Censos; a do país, 6,5%.

O próprio IBGE avisa, no material de divulgação de 2024, que a comparação direta tem limite. O mapa de 2022 foi refeito, e parte das áreas incluídas já existia em 2010 sem estar marcada.

Com o mapa refeito, os 1.133 por dia somam duas parcelas. Uma é gente que passou a morar em favela entre 2010 e 2022. A outra é favela antiga que só entrou no mapa agora.

O Censo não separa uma parcela da outra. O motivo é técnico: para medir quanto da alta veio do mapa novo, seria preciso ter a contagem de 2010 das áreas que só foram marcadas depois, e essa contagem não existe.

O número de áreas mapeadas mostra o tamanho da revisão. Em 2010, o IBGE marcou 6.329 aglomerados subnormais em 323 municípios. Em 2022, marcou 12.348 favelas e comunidades urbanas em 656 municípios.

A favela entrou na literatura brasileira pelo diário de uma moradora. Carolina Maria de Jesus, catadora de papel na favela do Canindé, em São Paulo, escreveu em 1958, num trecho publicado dois anos depois:

“Quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo.”

Carolina Maria de Jesus, Quarto de Despejo: diário de uma favelada, 1960

O Censo mede quantos moram nesses lugares. O diário de Carolina registrou como uma moradora se via neles, seis décadas antes da contagem de 2022.

Fonte e método: IBGE, Censos Demográficos de 2010 e 2022, moradores de aglomerados subnormais (2010) e de favelas e comunidades urbanas (2022), na data de referência de 31 de julho de cada ano; acréscimo dividido por 4.383 dias.

 
 

II  A Conta do Mês

De 1 em 17 para 1 em 12

A segunda conta troca a contagem absoluta pela proporção e pelo tamanho das áreas. São três números do IBGE que o gráfico não mostra.

Pelo IBGE, a fatia da população em favelas e comunidades urbanas passou de 6% em 2010 para 8,1% em 2022: de 1 em cada 17 brasileiros para 1 em cada 12.

A tabela junta os quatro indicadores dos dois Censos.

Indicador20102022
Moradores11,4 milhões16,4 milhões
Fatia do país6%8,1%
Áreas mapeadas6.32912.348
Municípios323656

O número de áreas quase dobrou, e o de municípios com pelo menos uma área marcada também. A população dentro delas cresceu menos que o número de áreas.

A divisão das duas linhas dá o tamanho médio. Em 2010, cada área tinha, na média, perto de 1.805 moradores. Em 2022, perto de 1.327.

A área média encolheu 478 moradores. A explicação mais provável está no mapa: o IBGE passou a marcar núcleos menores, em cidades médias e pequenas, que não tinham entrado na lista de 2010.

A Rocinha mostra o mesmo movimento por outro ângulo. Pelo IBGE, ela tinha 69.161 moradores em 2010 e 72.021 em 2022, já como a maior favela do país nos dois Censos.

São 2.860 moradores a mais em 12 anos, menos de 1 por dia. A maior favela do país cresceu 4,1% no período, abaixo dos 6,5% do país inteiro.

O Sol Nascente, em Ceilândia, fica a mais de 30 quilômetros do Plano Piloto de Brasília. Ocupado a partir dos anos 1990 em terras rurais loteadas sem licença, chegou ao Censo de 2022 com 70.908 moradores, 1.113 a menos que a Rocinha.

As duas pontas da tabela contam a mesma história. As maiores comunidades quase pararam de crescer, e o acréscimo de 4,97 milhões veio de milhares de áreas menores, novas ou recém-mapeadas.

Na prática, a fatia de 8,1% fala menos de favelas gigantes e mais de periferia espalhada: 656 municípios, e não só as metrópoles, passaram a ter moradores contados nessa categoria.

 

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III  Refaça a Conta

A favela da sua cidade em 4 passos

Quatro passos refazem a conta para qualquer município do país, com os dados abertos do IBGE.

1. O total de 2022: no portal Panorama do Censo 2022, do IBGE, abra o tema favelas e comunidades urbanas e busque o seu município. Anote o número de moradores.

2. A fatia: divida esse número pela população total do município no mesmo Censo e multiplique por 100. O resultado é a fatia local, para comparar com os 8,1% do país.

3. O total de 2010: no Sidra, o banco de tabelas do IBGE, busque aglomerados subnormais no Censo de 2010 e anote os moradores do mesmo município.

4. O ritmo: subtraia o valor de 2010 do de 2022 e divida por 4.383, os dias entre as duas datas de referência. O resultado é o número de moradores a mais por dia.

Um exemplo com números de teste: um município com 20.000 moradores em favelas em 2010 e 28.766 em 2022 ganhou 8.766 em 12 anos, 2 por dia.

Se o município não aparece na lista de 2010, a conta do passo 4 não se aplica. A área pode ter surgido depois ou só ter sido marcada em 2022, e o dado de 2010 não permite saber qual dos dois casos vale.

Três cuidados evitam conclusão errada.

O primeiro trata do mapa. Como o IBGE refez os limites, parte da alta local pode ser só área antiga recém-marcada. Uma alta grande num município pequeno merece essa dúvida antes de qualquer conclusão.

O segundo trata do nome. Favela e comunidade urbana é uma categoria do Censo, definida por título de propriedade, serviço público e padrão urbanístico. Um bairro pobre com escritura e rede de esgoto fica fora dela.

O terceiro trata da data. O Censo retrata o dia 31 de julho de 2022. Remoção, urbanização ou ocupação nova depois dessa data só aparece na próxima contagem.

O Panorama do Censo também mostra o mapa de cada área, com o limite desenhado sobre a imagem da cidade. Dá para ver se a favela do seu bairro está marcada e quantos moradores ela tem.

1.133 moradores a mais por dia, de 31 de julho de 2010 a 31 de julho de 2022. Foi o ritmo das favelas e comunidades urbanas nos Censos do IBGE.

 
 
 

Quiz da edição

Segundo o Censo de 2022 do IBGE, qual foi a maior favela do Brasil em número de moradores?

ASol Nascente, em Ceilândia (DF)
BComplexo do Alemão, no Rio de Janeiro
CRocinha, no Rio de Janeiro
DParaisópolis, em São Paulo

Veja o ranking de quem mais acerta →

 

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