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126 cesáreas por hora acima da referência da OMS

Pelo SINASC, a cesárea saiu de perto de 40% para 58% dos partos entre 1996 e 2022; na rede privada, chega a 88 em 100.

Gráfico dos partos cesáreos em % dos nascimentos: 1996 40, 2009 50, 2022 58, rede pública 46, rede privada 88, OMS 15.

Partos cesáreos, % dos nascimentos

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126 cesáreas por hora. Foi a distância entre os partos do Brasil em 2022 e a referência de 15% da Organização Mundial da Saúde, pela conta desta edição com os registros do Ministério da Saúde.

A fonte é o SINASC, o Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos. Cada bebê nascido no país ganha uma Declaração de Nascido Vivo, um formulário de três vias preenchido no hospital, e uma das perguntas do papel é o tipo de parto: vaginal ou cesáreo.

Cesárea é a cirurgia em que o médico abre o abdome e o útero da mãe para tirar o bebê. Ela salva vidas quando o parto normal trava, quando o bebê está atravessado ou quando a pressão da mãe dispara.

Fora dessas situações, a cirurgia troca um risco pequeno por outro. A mãe sai com um corte no útero, recuperação mais longa e chance maior de complicação na gravidez seguinte, e o bebê nasce sem passar pelo canal de parto.

A conta desta edição parte de perto de 2,56 milhões de nascidos vivos registrados em 2022. Com 58% de cesáreas, são perto de 1,49 milhão de cirurgias no ano.

Se o país operasse na faixa de 15%, seriam perto de 384 mil. A diferença passa de 1,1 milhão de cesáreas por ano, ou perto de 3 mil por dia.

Dividido pelas 8.760 horas do ano, o excedente dá 126 cirurgias a cada hora, de madrugada e em feriado, sem pausa.

O número mais alto da série não mora no SUS. Num hospital particular, a cesárea virou a forma comum de nascer, e o parto vaginal ficou para quem chega ao hospital já em trabalho de parto adiantado.

A seção I põe seis números lado a lado, na mesma unidade, porcentagem dos partos: três anos do SINASC, a rede pública, a rede privada e a referência da OMS.

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I  O Gráfico do Dia

Seis barras na mesma escala

A resposta de ontem

Em que ano a fibra passou o cabo coaxial na banda larga fixa?

Foi em 2020. Pelos dados de acessos da Anatel, a fibra até a casa ultrapassou o cabo coaxial das operadoras de TV paga naquele ano e não largou mais a liderança. Quem puxou a troca foram os provedores regionais, que estenderam fibra própria em cidades do interior onde as grandes operadoras nunca tinham chegado com cabo.

Pelo SINASC, a cesárea respondia por perto de 40% dos partos do país em 1996, chegou a 50% em 2009 e a 58% em 2022; a pesquisa Nascer no Brasil, da Fiocruz, achou 46% na rede pública e 88% na rede privada.

O ano de 2009 marca a troca de lugar. Pela primeira vez desde o começo da série nacional, o SINASC registrou mais bebês nascidos por cirurgia do que por parto vaginal, e a curva nunca mais desceu abaixo da metade.

A divisão entre rede pública e privada não sai pronta do SINASC. A Declaração de Nascido Vivo registra o hospital, mas não diz quem pagou a conta do parto.

Para essa resposta, a referência mais citada é o inquérito Nascer no Brasil, coordenado pela pesquisadora Maria do Carmo Leal na Fundação Oswaldo Cruz. A equipe entrevistou perto de 24 mil mulheres em 266 hospitais em 2011 e 2012 e publicou os resultados em 2014.

No total da amostra, 52% dos partos foram cesáreas. Nos hospitais públicos, 46%. Nos privados, 88%, ou quase nove em cada dez bebês.

A Agência Nacional de Saúde Suplementar, a ANS, chegou a número parecido com os dados das operadoras de planos de saúde: em 2015, perto de 84% dos partos pagos por plano foram cesáreos.

A referência de 15% tem data e endereço. Saiu de uma reunião da Organização Mundial da Saúde em Fortaleza, em 1985, publicada no mesmo ano numa revista médica britânica.

“Não há justificativa para que qualquer região tenha uma taxa de cesáreas acima de 10% a 15%.”

Organização Mundial da Saúde, Appropriate technology for birth, The Lancet, 1985

Em 2015, a OMS revisou a frase com estudos de vários países. A nova declaração disse que taxas acima de 10% não aparecem ligadas a menos mortes de mães e bebês, e deixou de cravar um teto único para todas as populações.

No lugar do teto, a OMS passou a recomendar a Classificação de Robson, um sistema que divide as gestantes em 10 grupos (primeiro filho, cesárea anterior, gêmeos, bebê sentado), para cada hospital comparar a taxa dentro de cada grupo.

O Brasil adotou a classificação nos registros. Desde 2014, a Declaração de Nascido Vivo traz os campos que permitem encaixar cada parto num dos 10 grupos de Robson, e o painel do Ministério da Saúde já mostra as taxas assim.

Fonte e método: Ministério da Saúde, SINASC, nascidos vivos por tipo de parto, 1996 a 2022; Fiocruz, Nascer no Brasil, 2014; OMS, 1985 e 2015; arredondamento desta edição.

 
 

II  A Conta do Mês

92 mil cirurgias a mais no mês

Pela conta desta edição, o Brasil faz perto de 92 mil cesáreas por mês acima da referência de 15%, ou perto de 3 mil por dia.

A conta usa só três números do SINASC de 2022: os nascidos vivos, a taxa de cesárea e a referência da OMS. A diferença entre 58% e 15% dá 43 pontos.

Aplicados aos 2,56 milhões de nascimentos, os 43 pontos viram perto de 1,1 milhão de cirurgias no ano. Divididas por 12, dão perto de 92 mil por mês.

Em unidades menores, a conta fica assim:

PeríodoCesáreas acima de 15%
Ano1,1 milhão
Mês92 mil
Dia3 mil
Hora126
Minuto2

O excedente não se espalha por igual. Pela pesquisa Nascer no Brasil, da Fiocruz, a maior parte das cesáreas da rede privada foi marcada antes de a mulher entrar em trabalho de parto, com data e hora na agenda do obstetra.

A mesma pesquisa ouviu as mães no começo da gravidez. Perto de dois terços das entrevistadas disseram preferir o parto vaginal, e a preferência caía ao longo do pré-natal, sobretudo entre as atendidas por plano de saúde.

A agenda pesa. Um parto vaginal pode levar 12 horas ou mais e cair num domingo; a cirurgia marcada dura perto de uma hora e cabe entre duas consultas.

O risco da cirurgia marcada cedo aparece no bebê. A Fiocruz, no mesmo inquérito, ligou a cesárea feita antes de 39 semanas de gestação a mais bebês com problema respiratório e mais internações em UTI neonatal, a unidade de terapia intensiva dos recém-nascidos.

O Conselho Federal de Medicina respondeu com a Resolução 2.144, de 2016. A regra permite a cesárea a pedido da gestante, mas só a partir da 39ª semana, com termo de consentimento assinado.

Antes dela, em 2015, a ANS publicou a Resolução Normativa 368. A norma obrigou as operadoras a informar à cliente, quando ela pede, a taxa de cesáreas do médico e do hospital, e exigiu o partograma, o gráfico que acompanha a dilatação durante o trabalho de parto.

No mesmo ano, a ANS lançou o projeto Parto Adequado, com o Hospital Israelita Albert Einstein e o Institute for Healthcare Improvement, um instituto americano de qualidade em saúde. Os hospitais da primeira fase reduziram a taxa de cesárea, e a média nacional seguiu subindo.

Na rede pública, a Rede Cegonha, de 2011, financiou casas de parto e enfermeiras obstétricas, formadas para acompanhar o parto vaginal de baixo risco sem cirurgia.

A série do SINASC mostra o resultado dessas medidas somadas: a taxa nacional parou de subir no ritmo da década de 2000, mas não voltou para perto de 50%, e a rede privada segue muito acima da pública.

 

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III  Refaça a Conta

A taxa do seu município em 4 passos

1. Os nascimentos: no TabNet do DATASUS, o portal de tabelas do Ministério da Saúde, abra Estatísticas Vitais e escolha Nascidos Vivos, a base do SINASC.

2. O recorte: marque o município de residência da mãe na linha, o tipo de parto na coluna e o ano mais recente disponível.

3. A taxa: divida os partos cesáreos pelo total de nascidos vivos e multiplique por 100. O resultado é a taxa de cesárea do lugar, em porcentagem.

4. A comparação: ponha o seu número ao lado dos 58% da média nacional de 2022 e dos 15% da referência da OMS.

Com números redondos, o caminho fica assim. Uma cidade com 4 mil nascidos vivos e 2.600 cesáreas tem taxa de 65%, acima da média nacional.

Para achar o excedente, subtraia 15 da taxa e aplique a diferença aos nascimentos. Na cidade do exemplo, 50 pontos sobre 4 mil bebês dão 2 mil cesáreas acima da referência no ano.

Para converter em hora, divida o excedente por 8.760. A cidade do exemplo faz perto de uma cesárea a mais a cada quatro horas.

Quatro cuidados evitam conclusão errada.

O primeiro trata do endereço. O TabNet permite contar pelo município da mãe ou pelo município do hospital; cidade com maternidade de referência recebe gestantes da região inteira, e a taxa por hospital sai distorcida.

O segundo trata do risco. Maternidade que atende gestação de alto risco opera mais, e a taxa alta pode refletir os casos difíceis que chegam ali; a Classificação de Robson separa esses grupos.

O terceiro trata do ano. O SINASC fecha o banco com atraso, e o ano mais recente aparece como preliminar até a consolidação, com números que ainda mudam.

O quarto trata do campo vazio. Uma parte pequena das declarações sai sem o tipo de parto preenchido; tire esses casos do total antes de dividir.

Com os quatro cuidados anotados, a taxa da sua cidade entra no mesmo gráfico, Para comparar duas cidades, repita os passos com o mesmo ano e o mesmo critério de endereço. Misturar município da mãe e município do hospital na mesma tabela cria uma diferença inexistente.

ao lado das seis barras desta edição.

126 cesáreas por hora acima da referência de 15%. Foi o excedente do Brasil em 2022 (Ministério da Saúde, SINASC; OMS, 1985).

★ RARO

🔒

EDIÇÃO SELADA

Quem leu até aqui tem mais um achado desta edição atrás do lacre.

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Segundo a edição, em que ano o SINASC registrou, por primeira vez, mais partos cesáreos do que partos vaginais no Brasil?

A1996
B2009
C2014
D2022

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